ISSN 2183 - 3990       

Como percecionam os netos a qualidade da relação com os avós

Como percecionam os netos a qualidade da relação com os avós

How do grandchildren perceive the relationship with grandparents

 

Ana Lisboa* Daniela Miguel* Flávia Cabral1* https://orcid.org/0000-0002-6825-5072 Mónica Pereira* https://orcid.org/0000-0002-3169-6130 Teresa Carvalho* https://orcid.org/0000-0003-1182-1923* Departamento de Educação e Psicologia, Escola de Ciências Humanas e Sociais, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Quinta de Prados, 5000-801, Vila Real, Portugal

 

 

RESUMO

Para melhor compreender a relação entre avós e netos, na sociedade contemporânea, este estudo irá analisar a qualidade desta relação, do ponto de vista dos netos. Esta investigação qualitativa é constituída por um conjunto de participantes de sete sujeitos universitários (5 raparigas e 2 rapazes), com idades compreendidas entre os 18 e 22 anos. Os instrumentos, na qual foi baseada esta investigação, foi o uso de questionários sociodemográficos e entrevistas semiestruturadas. Estas entrevistas foram realizadas individualmente, de forma oral, gravadas com o telemóvel e sem tempo pré-determinado. Os resultados sugerem que, em geral, a qualidade da relação entre avós e netos é boa, nomeadamente a relação estabelecida com os avós maternos, sendo que a avó materna foi a mais mencionada pelos participantes. Devido à qualidade positiva das relações estabelecidas com os avós, a maioria dos netos afirma que estes desempenham um papel de suporte na sua vida. No entanto, não recorrem aos avós, para os ajudarem a tomar decisões de grande impacto nas suas vidas. Pesquisas futuras devem focar-se, numa investigação mais aprofundada desta relação, com crianças e adolescentes.

Palavras-chave: Avós; Netos; Relação; Família

 

ABSTRACT

In order to better understand the relationship between grandparents and grandchildren in contemporary society, this study will analyze the quality of this relationship, from the point of view of the grandchildren. This qualitative research is made up of a sample of seven university subjects (5 girls and 2 boys), aged between 18 and 22 years. The instruments, on which this research was based, were the use of sociodemographic questionnaire and semi-structured interviews. These interviews were conducted individually, orally, recorded with the mobile phone and without predetermined time. The results suggest that, in general, the quality of the relationship between grandparents and grandchildren is good, namely the relationship established with the maternal grandparents, and the maternal grandmother was the most mentioned by the participants. Due to the positive quality of relationships established with grandparents, most grandchildren claim that they play a supportive role in their lives. However, they do not turn to grandparents to help them make life-changing decisions. Future research should focus on a closer investigation of this relationship with children and adolescents.

Keywords: Grandparents; Grandchildren; Relationship; Family

 

 

INTRODUÇÃO

Nos dias de hoje, assiste-se a uma mudança na sociedade, causada pelo envelhecimento cada vez maior da população, como consequência do aumento da esperança média de vida (García & Vega, 2013). Este aumento deve-se não só à diminuição da natalidade, mas também a vários avanços tecnológicos, especialmente na área da medicina (Becker & Steinbach,2012; Souza, 2014). Isto faz com que seja possível uma convivência e coexistência no sistema familiar de várias gerações (Rodrigues, 2013), dando a possibilidade aos avós de participarem mais ativamente e por mais tempo nas vidas dos seus netos (Becker & Steinbach, 2012; Ribeiro & Zucolotto, 2015) e de exercerem, assim, uma maior influência nas suas vidas (Smorti, Tschiesner & Farneti, 2012).

Desta forma, na sociedade contemporânea, o papel de avô ganhou uma nova importância, muito devido à cada vez maior ausência dos pais na vida dos seus filhos. A título de exemplo e a nível nacional, na população portuguesa, cerca de 70.5% dos avós participa, parcialmente, no sustento financeiro dos seus netos ou noutra qualquer função de suporte, como nos cuidados aos netos, exercendo assim, uma função de apoio na estrutura das famílias portuguesas (Aboim, Vasconcelos & Wall, 2013). Desta forma, denota-se também uma constante mudança no funcionamento do sistema familiar (Souza, 2014).

Várias poderão ser as razões para que os avós de hoje prestem cuidados aos seus netos. A ausência, parcial ou permanente, dos pais leva a que os avós, muitas vezes, tenham de assumir uma tarefa dupla de ser avô e de parentalidade, em simultâneo, uma vez que estes se tornam cuidadores a tempo inteiro. Outros fenómenos que podem ainda contribuir para a facilitação dos cuidados são a proximidade geográfica e também, o facto de estes terem vivido juntos (coabitarem) durante um longo período de tempo (Jorge & Lind, 2015).

Segundo Souza (2014), os efeitos do estabelecimento de vínculos entre avós e netos, pautados pelas trocas de experiências são bidirecionais. Se por um lado esta convivência permite ao neto(s) e/ou neta(s) formar uma opinião de caráter positivo sobre o processo de envelhecimento, também vai ter uma grande relevância para aqueles que se encontram na fase final das suas vidas, já que a interação com uma geração mais nova, motiva os avós para levar uma vida ativa e criativa, mesmo nesta fase existencial. Prato, Hernández, Techera e Rivas (2012) concluíram que a relação avô-neto foi percecionada positivamente por ambas as partes, embora os avós tenham notado algumas mudanças no vínculo com os seus netos durante a adolescência. Por sua vez os netos têm retratado os avós com fonte de gratificação emocional e como forma de transmitir histórias e valores (Pires, 2010).

No entanto, esta relação entre avós e netos parece também ser afetada por alguns fatores. Por exemplo, Becker e Steinbach (2012) sugerem que a idade cronológica dos avós vai influenciar a relação que criam com os netos. Por exemplo, avós que estejam reformados vão ter mais tempo livre, no qual podem aproveitar para realizar atividades e tarefas com os netos, o que leva a um estreitamento dos vínculos afetivos entre eles. Em contraste, estes avós, devido à sua idade mais avançada, são mais vulneráveis no desenvolvimento de doenças do foro físico e/ou mental, derivadas do processo de envelhecimento, o que pode causar uma imobilização gradual destes. Esta perda das capacidades funcionais dos avós vai influenciar a aproximação e a intimidade que é estabelecida com os seus netos. A qualidade dos vínculos e a proximidade entre a geração intermédia, dos pais e a geração dos avós vai também ter um impacto (positivo ou negativo, dependendo da relação pais-avós) na relação entre avós e netos. Os autores apresentam ainda o género como uma variável que influencia o tipo de relação que é estabelecido entre avós e netos (Dias, 2002; García & Vega, 2013). Enquanto que, no caso das avós, estas dedicam mais tempo a atividades relacionadas com a linguagem (por exemplo contar histórias da sua família), os avôs dedicam mais tempo a atividades físicas, nomeadamente em caminhadas ou jogos ao ar livre (Smorti et al., 2012). Este facto veio confirmar que o sexo dos avós ainda influencia a estruturação da relação, que é estabelecida entre as diferentes gerações. Por fim, a linhagem (isto é, se são avós maternos ou paternos) também parece ser um fator que influencia a relação entre avós e netos, sendo que os avós paternos realizam atividades de caráter mais linguístico do que os avós maternos (Smorti et al., 2012). Para além disto, em 2017, Azambuja e Rabinovich concluíram que a relação entre avós e netos está baseada no tipo de relacionamento determinado pela frequência de encontros. Esta frequência possibilita não apenas a quantidade das interações como a sua qualidade na convivência. Sabe-se ainda que a casa dos avós é o ponto de encontro familiar e o espaço mediador do diálogo, este de fundamental importância, pois possibilita a troca educacional entre as gerações (Schmidt, 2007). A proximidade geográfica parece influenciar os parâmetros confiança e mediação, na medida em que, esta facilita a relação (Cunha & Matos, 2010).

Neste sentido, Viguer, Meléndez, Valencia, Cantero, & Navarro (2010) a partir dos seus resultados elaboraram um perfil do “avô preferido” pelas crianças, sugerindo que o avô preferido é a avó materna, reformada ou dona-de-casa, entre os 60 e os 70 anos e que vivem na mesma zona ou cidade que o seu neto, mantendo contacto várias vezes por semana. Por sua vez, segundo Oliveira e Karnikowski (2012), na perspetiva dos netos, adolescentes e jovens adultos, os avós “ideais” são aqueles que mais lhes transmitem amor, carinho e afetos e em seguida, são aqueles que têm uma maior tolerância, compreensão, uma mente mais aberta e que dialogam e comunicam com os seus netos.

Por estas razões, e já que, segundo Oliveira (2012), este pode ser considerado o “século dos avós” (Morgado & Vitorino, 2012), é crucial que se estude a relação entre avós e netos a fim de melhor se compreender o funcionamento dos sistemas familiares contemporâneos (de jovens adultos).

Assim, com este trabalho pretende-se estudar a perceção que os netos têm da qualidade da sua relação com os seus avós.

 

Método

Participantes

Este trabalho de investigação é de caráter qualitativo, uma vez que, é um método de estudo que permite obter informação mais detalhada e vasta das características individuais dos sujeitos e das suas perceções, neste caso, da relação com os seus avós. Para além disto, no nosso país é escassa a bibliografia existente, relativamente ao tema em questão. Os participantes deste estudo foram constituídos por sete indivíduos dos quais cinco são do sexo feminino e dois do sexo masculino com idades compreendidas entre os dezoitos anos e os vinte e dois anos, que frequentam uma universidade do norte de Portugal.

 

Instrumentos

Cada participante respondeu a um questionário sociodemográfico e a uma entrevista semiestruturada conforme um guião pré-estabelecido sobre a relação com os seus avós. O questionário sociodemográfico apresentava questões relativas às características dos participantes (idade, sexo, com quem vive, curso, ano, agregado familiar e se vivia com os avós, se sim, há quanto tempo vivia com eles). A entrevista semiestruturada tinha como questão de pesquisa: “Como percecionam os netos a qualidade da relação com os avós?” e apresentava dois subtópicos principais avaliados através das seguintes questões: “Como é a tua relação com os teus avós?” e “Sentes que os teus avós são uma fonte de suporte na tua vida?”. É de referir que o guião da entrevista (ver anexos) e por nós utilizado teve por base um outro estudo qualitativo e de caráter exploratório sobre a temática em questão (Mia, 2010).

 

Procedimentos

O primeiro passo para a realização deste estudo foi a pesquisa bibliográfica nas principais bases de dados (ScienceDirect, Scielo, B-on, Dialnet, Google Académico) e, posteriormente foi elaborado o guião da entrevista. O primeiro contacto com os participantes foi realizado através de uma conversa, a fim de explicar os objetivos da pesquisa e para agendar a data e local para a realização da referida entrevista. Deu-se uma especial atenção aos cuidados éticos a ter com os participantes através da assinatura do consentimento informando garantindo a confidencialidade e anonimato dos dados recolhidos. As entrevistas foram realizadas, numa sala de uma Universidade do norte de Portugal, de forma oral e gravadas separadamente para cada estudante, sem tempo pré-determinado, visando a uma melhor fidedignidade das informações trazidas pelos participantes. Em seguida, o material gravado foi transcrito para que fosse possível interpretar os resultados por meio da análise de conteúdo (Bardin, 2011). Depois da transcrição das entrevistas, estas foram analisadas, de forma a sintetizar os principais temas salientados pelos participantes (Krippendorff, 1990).

 

Resultados

Esta investigação teve em vista a análise de entrevistas com o objetivo de perceber a relação existente entre avós e netos, bem como os principais tópicos que lhe estão associados.

As sete entrevistas foram analisadas de acordo com a seguinte questão de pesquisa: “Como percecionam os netos a qualidade de relação com os avós?” e tendo em vista dois sub-tópicos de pesquisa: 1) Descrição da relação com os avós e 2) Avós como fonte de suporte/apoio.

Cada entrevistado será mencionado através de um código, sendo que E1 corresponderá ao entrevistado número 1, e assim sucessivamente.

 

Descrição da relação com os avós – Perceção de Relacionamento

Como é a relação com os teus avós?

A esta questão todos os participantes referiram ter uma boa relação com os avós.

E3: “É boa tanto com os avós maternos e com a avó paterna. Sim nós costumamos vernos várias vezes por isso acho que sim, é boa.”

Dentro desta questão mais geral, surgiram outras mais específicas, relacionadas com o tempo que os netos passam com os avós bem como as situações em que os netos estão com os avós, sendo possível perceber que as principais situações em que os entrevistados passam tempo com os avós é em momentos de convívio familiar ou pelo facto de viverem próximos de suas habitações ou mesmo com eles.

E2: “(…) a relação com os avós maternos é muito boa mesmo. Eles até vivem em frente à minha casa, por isso estou com eles todos os dias praticamente, é como se fossem os segundos pais. Os paternos, é tipo só os vejo para aí 3 vezes por ano. Somos completamente afastados. Não há muita relação, sinceramente.”

E7: “Neste caso como eu moro perto estou sempre (…) eu quando estou em casa eu vejo sempre a minha avó.”

E4: “Almoços e sempre que os vou visitar”

Quando os entrevistados eram questionados acerca da relação que têm com os seus avós, estes faziam de imediato a distinção entre avós maternos e paternos. A maioria referia ter maior relação com os avós maternos, nomeadamente da avó materna.

E4: “Mais da minha avó materna é aquela que mora mais perto”

 

Avós como fonte de suporte/apoio

Sentes que os teus avós são uma fonte de suporte na tua vida?

A esta questão central quatro dos participantes referiram que sim. Porém os restantes responderam que não.

Deste modo, dentro desta questão também surgiram outras que abordaram tópicos relativos à pergunta central, mas que permitiram um desenvolvimento das respostas por parte dos entrevistados. Quando questionados sobre já terem recorrido aos avós para tomar decisões importantes, apenas um entrevistado respondeu que sim. Porém quando questionados acerca da valorização da opinião que tem os seus avós, todos os entrevistados mencionaram que sim.

E1: “Não. Eu não passo assim muito tempo com eles e as únicas coisas que eu tenho deles é aqueles ditados antigos ou rezas antigas e essas coisas e não acho que isso sejam coisas que eu aplique ao meu dia-a-dia ou para eu tomar decisões, são coisas mais tradicionais.”

E4: “Sim...bastante.”

 

Discussão

De forma geral, todos os participantes tinham pelo menos um avô envolvido na sua vida e com algum grau de proximidade. Após a sua análise dos resultados de acordo com os dois tópicos principais: 1) Descrição da relação com os avós e 2) Avós como fonte de suporte/apoio, iremos apresentar a discussão dos mesmos, tendo em vista a literatura sobre o tema.

No que diz respeito ao primeiro tópico e tendo em conta a pergunta “Como é a relação com os teus avós?”, a maior parte dos participantes consideraram a sua relação com os avós boa, frisando o facto de se verem várias vezes. Assim, tal resultado está de acordo com estudos realizados visto que, estes afirmam que o facto de haver um convívio constante irá ajudar no crescimento da reciprocidade intergeracional entre o avós e netos (Silva, 2012; Tarallo, 2015). No entanto, apesar do convívio ser necessário para que haja uma boa relação entre avós e netos, outro fator que influencia a qualidade de relação é a proximidade geográfica (Mueller & Elder, 2003; Mueller, Wilhelm & Elder, 2002; Schutter, Scherman & Carroll, 1997; Smith & Drew, 2004). Existem algumas diferenças entre avós paternos e maternos para alguns dos entrevistados, pois, de acordo com os resultados ainda referentes ao tópico 1, por vezes não há tanta qualidade de relação visto que os avós maternos ou paternos se encontram longe da residência do entrevistado. Os resultados indicam ainda que, para além daqueles avós que, ou vivem com os entrevistados ou vivem perto deles (e, por isso, depreendemos que o convívio seja diário ou constante), os entrevistados convivem com os avós em várias situações tais como convívios de família ou simplesmente visitas.

De acordo com um estudo realizado por Dias e Silva (2003), para alguns jovens universitários, tais acontecimentos ajudaram-nos no aspeto social (respeito, influência no próprio comportamento, participação nos acontecimentos de família) como no aspeto pessoal (fonte de aprendizagem, senso de perspetiva, ligação emocional). Noutro estudo, realizado por Franks, Hughes, Phelps e Williams (1993), os jovens atribuíram aos avós um significado de confidentes, companheiros aquando o convívio com os avós nas situações referidas anteriormente. O convívio entre gerações é uma garantia para a manutenção dos saberes quer do grupo familiar quer da cultura regional. Este convívio permite uma nova maneira de estar e é através desta relação que avós e os netos trocam experiências de vida, ocorrendo uma coeducação entre as gerações (Santos, 2005).

Segundo os nossos resultados, que corroboram os dados da pesquisa bibliográfica realizada, os netos geralmente sentem-se mais próximos da avó materna (Dias & Silva, 2003). As avós maternas, de acordo com o estudo de Azambuja e Rabinovich (2017) são as mais preferidas pois, são as que normalmente estão mais envolvidas no cuidado das crianças, ajudando-as nas pequenas e grandes tarefas. Estas estabelecem uma relação com os seus netos de forma a influenciar a sua vida (Block, 2000; Chan & Elder, 2000; Farneti & Cadamuro, 2005; Virguer et al., 2010).

No que respeita ao tópico 2 e de acordo com a questão principal que lhe está associada “Sentes que os teus avós são uma fonte de suporte na tua vida?”, apesar de não haver um consenso nas respostas, a maioria dos participantes referiu que efetivamente os avós são uma fonte de suporte na sua vida. De facto, os netos consideram que os avós afetaram a sua vida em várias áreas tais como valores, crenças religiosas, identidades pessoais e metas (Roberto & Stroes, 1992). Batchelor (1992) considera que os avós não servem apenas para companheirismo e para ouvir e entender os seus problemas, servem também para ajudar a resolvê-los. No entanto, apesar de a maior parte dos nossos participantes acreditarem que os avós são importantes na sua vida e de valorizarem a sua opinião, os netos não procuram os avós quando necessitam de tomar decisões importantes (tal é verificado na questão “Já recorreste aos teus avós para tomar alguma decisão importante?”, em que apenas um participante respondeu afirmativamente). Estes resultados podem-se dever ao facto de, apesar de os netos verem nos seus avós o significado de respeito e sabedoria (Dias, & Silva, 2003) e de verem os avós como adultos mais sábios, a diferença de idades e gerações torna difícil o facto de haver consenso entre as ideias existentes quer por parte dos netos, quer por parte dos avós, ou porque os avós querem que os netos pensem da mesma maneira que eles (Paixão & Morais, 2016).

 

Conclusões

Este estudo mostrou que a relação entre netos e avós é, em geral, de uma boa qualidade e que, mesmo em idades mais adultas, como é o caso dos jovens universitários, os avós ainda são uma figura importante e muito querida dos netos. No entanto, parecem existir alguns fatores que influenciam esta relação, como a proximidade geográfica, isto é, os netos percecionam e descrevem existir uma melhor relação quanto mais próximos estão os avós dos netos ou vice-versa e o convívio constante.

Para além da constante convivência e proximidade, os universitários afirmaram que as situações de convívio com os avós resumiam-se a convívios familiares, como por exemplo, almoços e jantares. De facto, os convívios familiares, passeios e visitas, fazem com que os avós ajudem os seus netos em aspetos sociais e pessoais (Dias & Silva, 2003).

Um dos aspetos mais mencionados pelos netos e em que menos discordância existiu entre as respostas dos participantes foi a preferência pela linha materna, nomeadamente pela avó materna. Isto pode dever-se ao facto de existir uma maior convivência com a parte materna da família, possivelmente devido à também maior proximidade dos filhos com as mães independentemente do género, ou seja, parece aqui haver uma espécie de reprodução daquilo que acontece entre pais e filhos. Segundo Kunitsyna e Kazantseva, os tipos de vinculação e apego entre os filhos e as mães tende a reproduzir-se em outras relações de proximidade (Kunitsyna & Kazantseva, 2009).

Um dos aspetos mais curiosos e interessantes desta investigação é o facto de que, apesar de os netos percecionarem os avós como fonte de apoio e de valorizarem a sua opinião, efetivamente, parece não haver uma procura por esta opinião ou de conselhos por parte dos netos.

Finalmente, ao longo deste trabalho, deparamo-nos com algumas limitações a nível de pesquisa bibliográfica. Uma delas, é o facto de, apesar do crescente envelhecimento da sociedade atual, a relação entre avós e netos é ainda pouco estudada na perspetiva dos netos, principalmente quando estes são jovens ou adultos. Para além disso, a maior parte da informação existente acerca deste tema é o facto de os estudos serem feitos com avós cuidadores e não com avós que não fazem parte do agregado familiar. Assim, um dos maiores obstáculos na realização desta investigação foi a procura bibliográfica sobre este tema. Isto pode dever-se ao facto de certos temas parecerem não ter interesse para investigação, uma vez que envolve uma classe etária que se encontra desvalorizada na sociedade ocidental.

Deste modo, seria interessante que em futuras pesquisas se investigasse com maior aprofundamento esta relação, em primeiro lugar em Portugal, na perspetiva dos netos, tanto adolescentes, jovens ou adultos, e, por fim, com avós que não residem com os netos.

 

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