ISSN 2183 - 3990       

Estudo compreensivo sobre a forma de lidar dos estudantes universitários com a ansiedade

Estudo compreensivo sobre a forma de lidar dos estudantes universitários com a ansiedade

Comprehensive study about how college students deal

with anxiety

Beatriz Bastos1*

Inês Martins*

Joana Dias*

Sara Rebelo*

Vanessa Mendes*

Sónia Costa2

* Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, Portugal

 

 

Resumo

A entrada para a universidade e a necessidade de adaptação que daí advém, revela-se um fator que por si só despoleta sintomas de ansiedade nos estudantes universitários, podendo afetar o funcionamento físico, social, emocional, cognitivo e o desempenho académico dos mesmos. Neste sentido, empregando uma entrevista semiestruturada de resposta aberta, a presente investigação procurou, junto de cinco estudantes universitárias, com idades compreendidas entre os 20 e os 23 anos, desenvolver uma abordagem compreensiva sobre a forma de lidar com a ansiedade dos estudantes universitários, procurando identificar as principais fontes de ansiedade, estratégias de coping mais utilizadas e as principais emoções experienciadas. A ansiedade é percecionada como um estado de ameaça por todos os estudantes que provoca tensão, em simultâneo com diversos sintomas físicos e emocionais. Não obstante, a maioria das participantes revelaram usar estratégias que lhes permite ultrapassar positivamente as adversidades recorrentes do contexto universitário.

Palavras-chave: ansiedade; estudantes universitários; adaptação; coping

 

Abstract

The entrance to the university and the need for adaptation that follows, is a factor that in itself triggers anxiety symptoms in university students, and can affect the physical, social, emotional, cognitive and academic performance of them. Thus, an open-ended semi-structured interview was used. The present research aimed to develop a comprehensive approach on how to deal with the anxiety of university students with 5 college students aged 20-23, trying to identify the main sources of anxiety, coping strategies most used and the main emotions experienced. Anxiety is perceived as a threatening state by all students that causes tension, simultaneously with various physical and emotional symptoms. Nevertheless, the majority of the participants showed that they use strategies that allow them to overcome positively the recurring adversities of the university context.

Keywords: anxiety; university students; adaptation; coping

 

 

Introdução

Com a entrada na universidade acontecem uma série de mudanças, devido a novos estilos de vida propícios de um meio diferente, que justificam a necessidade de adaptação à vida académica. Assim, o ensino superior desempenha um papel crucial ao colocar novos desafios e ao proporcionar o crescimento de novas competências por parte dos estudantes (Oliveira, Santos, & Dias, 2016).

O ingresso na universidade assume-se como um processo complexo e multidimensional uma vez que, exige um esforço de ajustamento do indivíduo (Oliveira, Santos, & Dias, 2016). Este pode originar alterações nos papéis, nas rotinas, nas relações interpessoais, mas também na forma como cada um se vê a si próprio e o mundo (Cruz, 2008).

Os estudantes nem sempre estão preparados para as exigências e desafios com que terão de lidar, particularmente no domínio académico e interpessoal. A adaptação no ensino superior pode ser afetada negativamente por complicações na autonomia e na autorregulação em tarefas como a gestão do tempo e atividades académicas propostas (Antunes, 2016). Quando os alunos têm uma maturidade psicológica superior, a ansiedade relacionada com a transição é mais reduzida. As dificuldades sentidas na adaptação diferem, por isso, entre indivíduos (Almeida & Cruz, 2010).

Durante este período de transição e adaptação a um novo contexto, os estudantes tornam-se um grupo de risco para a evolução de perturbações mentais. O funcionamento físico, social, emocional, cognitivo e desempenho académico podem ser afetados em resultado por problemas psicológicos (Oliveira et al., 2017). Verifica-se, deste modo, uma relação negativa entre a ansiedade e o desempenho académico (Hamidi & Sulaiman, 2016).

A ansiedade também surge regularmente em situações de avaliação (Ferreira, 2014). Os alunos que apresentam ansiedade em situações de avaliação têm uma predisposição para as avaliar como ameaçadoras. Isto acontece quando o indivíduo pensa não ter capacidades cognitivas para atender à situação, desencadeando sentimentos como incapacidade, atribuições de falha prévia, perceções negativas de incapacidade de desempenho (Borralha, 2012).

As perturbações de ansiedade caracterizam-se não só pela presença de emoções intensas que provocam medo e ansiedade, mas também por distúrbios provocados ao nível do comportamento. Embora relacionados, o medo e a ansiedade não são a mesma coisa. Por medo, entende-se uma resposta emocional a uma ameaça, real ou percebida. Já a ansiedade, surge quando se prevê uma ameaça futura, no qual resulta tensão muscular, estado de vigilância e comportamentos de esquiva ou apreensão. A diferença entre as perturbações de ansiedade e o medo ou ansiedade adaptativos consiste no facto de estes serem excessivamente apresentados e prolongarem-se para além dos períodos adequados para o desenvolvimento (APA, 2014). Trata-se de uma emoção que, pela presença de um conflito interno, é classificado como um sinal de alerta, objetivando prevenir um perigo iminente, permitindo ao individuo lidar com a ameaça (Padilla-Coreano et al., 2016).

A ansiedade é percebida pelo indivíduo como um alerta tenso e fisicamente esgotante, centralizado num perigo próximo e inevitável, apesar de não ser concretamente aparente, caraterizado por uma incerteza inquietante sobre a possibilidade de resolução (Steiner, Zaske, Durand, Molly, & Arteta, 2016).

A ansiedade pode ser despoletada sobre a forma de diversos sintomas, tais como tonturas, dores musculares, insónia, tensão, taquicardia, irritabilidade, falta de atenção e angústia. Esta sintomatologia é controlada pelo sistema nervoso autónomo (Ferreira et al., 2009; Nelson, Purdon, Quigley, Carriere, & Smilek, 2015) e está relacionada com a ativação no córtex pré-frontal ventromedial, no hipocampo e amígdala (Rigoli, Ewbank, Dalgleish, & Calder, 2016).

De acordo com Carvalho, Bertolini, Milani e Martins (2015) alunos com transtorno de ansiedade demonstram uma atitude passiva nos seus estudos, como a falta de interesse na aprendizagem, o mau desempenho nos exames e nos trabalhos académicos. Os sintomas psicológicos da ansiedade entre os estudantes incluem sentimentos de nervosismo antes de uma aula, pânico, esquecimento durante uma avaliação de aprendizagem, impotência ao fazer trabalhos académicos, ou a falta de interesse perante uma matéria difícil. Já os sintomas fisiológicos compreendem as palmas das mãos frias, suadas, nervosismo, aceleração dos batimentos cardíacos e atividade respiratória e dor de estômago.

Ainda no que se refere ao desempenho académico, a literatura revela que altos níveis de ansiedade diminuem a memória operacional, o raciocínio, promove distração nos estudantes e, por sua vez, os alunos com maior nível de ansiedade tendem a obter notas mais baixas nas avaliações escolares (Carvalho et al., 2015).

Se um indivíduo for exposto a situações que são avaliadas por ele como perturbadoras ou até ameaçadores, o organismo insurge-se com vista a tentar orientar os acontecimentos e adaptar-se a eles. Um acontecimento é considerado ameaçador se for visto como potencial causador de prejuízo ou de perda. A partir da apreciação que faz da situação, em função do significado que ela tem para si, esta é entendida como mais ou menos ameaçadora (Costa & Leal, 2012). Quando o indivíduo não consegue controlar determinadas situações, estas revelam-se como grandes causadoras de um grande nível de stress e de mal-estar psicológico (Araújo & Almeida, 2015).

Não obstante, a ansiedade é uma reação natural e imprescindível para a auto preservação, mas também uma potenciadora do desempenho (Lantyer, Varanda, Souza, Padovani, & Viana, 2016). Quando os níveis de ansiedade são elevados trazem prejuízos no desempenho profissional, com repercussões negativas já que impossibilita ou torna mais difícil a sua capacidade de adaptação (Araújo & Almeida, 2015; Lantyer et al., 2016).

Tanto os adultos como os jovens estão igualmente predispostos ao desenvolvimento de perturbações mentais. Dado que durante todo o percurso académico, o estudante é exposto a situações que podem gerar grande pressão psicológica e ansiedade, e como nessa idade todos os sentimentos e as emoções tem grandes dimensões, é uma situação que tem que ser vista com seriedade (Cruz, Pinto, Almeida, & Aleluia, 2016). A ansiedade assume-se como um dos motivos mais habituais que levam o estudante a procurar ajuda, nomeadamente, apoio psicológico e pode estar relacionada com o aumento do consumo de café, tabaco e álcool, redução das horas de sono, distúrbios comportamentais, entre outros (Araújo & Almeida, 2015; Ávila-Toscano, Pacheco, González, & Polo, 2015).

Quando a ansiedade está ativada, o indivíduo faz uma nova avaliação das condições stressantes numa tentativa de encontrar uma forma de lidar com a situação. São, deste modo, consideradas uma variedade de possibilidades de coping que permitem ao sujeito “escapar” à ansiedade (Rocha, 2010).

O coping é assim definido como o conjunto de estratégias cognitivas e comportamentais desenvolvidas pelo sujeito para lidar com as exigências internas ou externas da relação dinâmica pessoa-ambiente, que se apresentem como desafiantes para o indivíduo, excedendo os seus recursos. Estas estratégias estão relacionadas com a saúde mental, uma vez que são passíveis de moderar o impacto dos acontecimentos de vida, aumentando os níveis de bem-estar psicológico (alegria, satisfação e prazer de viver) e reduzindo o sofrimento (Costa & Leal, 2004).

Por conseguinte, as estratégias de coping podem ser aprendidas e aplicadas. O coping assume-se como uma variável mediadora entre um acontecimento e os resultados ou consequências do mesmo (Ferreira, 2014). As estratégias de coping são eficazes quando proporcionam ao sujeito uma redução da tensão ocasionada pelo evento stressante, de modo a conseguir adaptar-se à situação. O contexto permite avaliar a adaptabilidade. Assim, uma estratégia particular que pode ser adaptativa numa situação, noutra pode não funcionar (Costa & Leal, 2012).

Os estudos sobre o coping estão ligados a acontecimentos futuros, englobam estratégias flexíveis, conscientes e atentas à realidade que o envolve. Se o indivíduo não dispõe de respostas automáticas para enfrentar uma determinada situação, recorre então a estratégias de coping. O seu grau de eficácia depende do tipo de recursos que o indivíduo utiliza, bem como do tipo de situação que defronta (Moura, 2011).

Na universidade, as problemáticas mais comuns que levam os indivíduos a procurar ajuda são as questões de indecisão e desajustamento em relação ao curso, ansiedade em situações de avaliação, ansiedade face às tomadas de decisão, perturbações de humor e os problemas de realização académica (Araújo & Almeida, 2015). Estudos demonstram que os estudantes universitários que terminam o curso manifestam maiores índices de ansiedade, isto é, apresentam variações emocionais maiores em relação aos que frequentam o primeiro ano (Carvalho et al., 2015).

Existem dois tipos de tratamento que, embora diferentes na sua base teórica, podem diminuir consideravelmente a ansiedade entre os estudantes universitários. Trata-se da terapia cognitiva-comportamental e da terapia psicodinâmica (Davies, 2015; Monti, Tonetti, & Bitti 2013).

Na literatura internacional, um número considerável de estudos tem investigado as relações entre coping e adaptação académica. De um modo geral, constata-se que as estratégias ativas, direcionadas à resolução de problemas têm apresentado correlação direta e positiva com a adaptação à universidade (Costa & Leal, 2012). Da mesma forma, tem-se observado que o uso de estratégias baseadas no suporte social, designadamente a procura de apoio nos pares, como a família e amigos, estabelecem-se em bons preditores da adaptação académica (Pereira et al., 2012). Em contraste, comportamentos focados essencialmente na emoção, como o uso da evitação e distanciamento, têm sido relacionados a índices inferiores de ajustamento ao ensino superior (Carlotto, Teixeira, & Dias, 2015).

Ainda no âmbito internacional, estudos realizados junto do público universitário têm verificado que questões inerentes ao género e ao ano académico em que o indivíduo se encontra, poderiam influenciar na escolha de determinadas estratégias de enfrentamento. De modo geral, observou-se que as estudantes do sexo feminino usam com mais frequência estratégias sustentadas na emoção e no apoio social. Já entre homens, verifica-se uma maior tendência para agir como se o problema não existisse, recorrendo a atividades para se distrair, mudam os seus comportamentos e até as suas posições cognitivas de modo a aceitar melhor a situação, além de adotar comportamentos de compensação (álcool, drogas, tabaco). Fatores culturais e psicossociais como a autoimagem, a virilidade e os papéis socialmente estabelecidos podem estar associados a esta diferença (Costa & Leal, 2012). Quanto ao ano, tem-se constatado que caloiros utilizam com mais frequência estratégias de distanciamento, de evitação e isolamento, fazendo menor uso de atitudes baseadas no suporte social, enquanto que alunos em graus de ensino mais avançados usam mais frequentemente técnicas ativas de resolução de problemas (Carlotto, Teixeira, & Dias, 2015).

Uma outra estratégia a que os estudantes recorrem para lidar com situações adversas corresponde à estratégia de controlo, que implica o autocontrolo da situação, a coordenação dos comportamentos ou atividades e a contenção das emoções (não entrar em pânico, não mostrar aos outros as emoções que vivenciam). O uso desta estratégia parece influenciar o bem-estar psicológico, ao mesmo tempo que se associa aos fatores de distress ou mal-estar psicológico (Costa & Leal, 2004).

Algumas tarefas têm como objetivo diminuir a ansiedade, sendo que um dos aspetos mais relevantes é que a ansiedade reduz em função da satisfação dos estudantes com as suas amizades. Estudantes que gerem o seu stress e detêm crenças realistas saudáveis evidenciam pontuações mais baixas de ansiedade (Foster, Steen, O’Ryan, & Nelson, 2016). Segundo um estudo de Ferreira (2014), realizado numa população de estudantes universitários, tendo em consideração as estratégias de coping, revelou que os estudantes utilizam com mais frequência as estratégias de controlo e de suporte social comparativamente com as estratégias de “retraimento, distração e negação, conversão e aditividade”, a centralização na forma de resolver os problemas após analisá-los e ainda a adoção de comportamentos de compensação (drogas, medicamentos e tabaco).

Para minimizar os efeitos negativos do stress e da ansiedade aos testes, a estratégia mais utilizada pelos estudantes assenta no “retraimento, conversão e aditividade”, uma estratégia direcionada para o evitamento (Rocha, 2010).

Em inúmeras investigações, estudantes de psicologia relatam sofrimento mental, englobando a ansiedade, o que leva a uma necessidade de intervenções que fomentem estratégias de coping mais eficazes nos estudantes de modo a prevenir situações futuras de angústia e ansiedade (Vibe et al., 2013).

Em suma, as estratégias de coping utilizadas pelos estudantes universitários para resolver os seus problemas depende da sua capacidade para confrontar-se com situações que envolvem benefícios e custos (Ferreira, 2014).

A grande maioria dos estudos realizados sobre esta temática são quantitativos e, assim, optamos por utilizar uma metodologia qualitativa para poder proporcionar um conhecimento mais profundo, completo e individual sobre a forma de lidar dos estudantes universitários com a ansiedade.

Assim, face à literatura apresentada o objetivo do presente estudo, ao recorrer a uma metodologia qualitativa, designadamente a entrevista, consistiu em desenvolver uma abordagem compreensiva sobre a forma de lidar com a ansiedade dos estudantes universitários, procurando identificar as principais fontes de ansiedade, as estratégias de coping mais utilizadas e, ainda, as principais emoções experienciadas.

 

 

Metodologia

Participantes

Neste estudo participaram cinco estudantes do sexo feminino, com idades compreendidas entre os 20 e os 23 anos (M=20,6). Os participantes foram recolhidos no curso de psicologia (quatro) e no do curso de reabilitação psicomotora (um) de uma universidade do norte do país. O critério de inclusão utilizado foi ser estudante universitário.

 

Instrumentos

Para a execução deste estudo, os dados foram obtidos através de uma entrevista semiestruturada de resposta aberta desenvolvida de acordo com Guerra, (2014). O guião utilizado apresentava cerca de 10 questões, que abordavam aspetos como fontes, causas e frequência de situações que desencadeiam ansiedade, bem como estratégias de coping para ultrapassá-las.

Através de um consentimento informado, foi assegurado a cada participante o anonimato e a confidencialidade dos dados, sendo atribuído a cada um deles um pseudónimo, para mais tarde poder divulgar-se e comparar os dados de todas as entrevistas. Foi também pedido para gravar o momento da entrevista, para facilitar a transcrição das mesmas. Estas foram realizadas em locais calmos e reservados de forma a facilitar o testemunho dos participantes e a evitar a influência de terceiros, tendo como duração cerca de 10 a 15 minutos.

 

Procedimentos

Ao longo da entrevista, os entrevistadores optaram por não adotar uma postura crítica e avaliativa, mostrando interesse pelo discurso do participante e, desta forma, só caso surgisse alguma dúvida sobre uma afirmação é que eles intervinham para a esclarecer.

A análise do conteúdo das entrevistas foi realizada de acordo com o procedimento adotado pelos investigadores especialistas em metodologia qualitativa. Posto isto, esta análise compreendeu quatro fases que se mostraram fundamentais.

Numa primeira fase, executou-se a transcrição das entrevistas, escrevendo-se as respostas das questões propostas ao participante tal como ele as disse, através da gravação áudio realizada, com o intuito de as organizar de forma lógica e coerente. Numa segunda fase, passou-se à leitura e análise cuidada do que foi respondido, identificando as ideias comuns de cada participante de forma a organizar o material por palavras, temas e tópicos.

De seguida, procedeu-se à identificação e descrição dos conteúdos específicos abordados e, por fim, executou-se uma análise indutiva das respostas, de forma a alcançar os juízes e convicções a cerca desta temática para chegar a conclusões mais gerais. No que diz respeito às conclusões, utilizaram-se como base, não só as dimensões mais gerais obtidas da interpretação dos dados anteriores, mas também os resultados propostos pela literatura.

 

Resultado

Relativamente às entrevistas, conseguiu-se alcançar alguma similaridade entre as respostas dos participantes.

Quando se colocou a questão “O que entende por ansiedade?”, no geral os indivíduos responderam que acima de tudo era um sentimento de medo e preocupação com o futuro:

“Para mim a ansiedade pode ser um sentimento causado por algum medo ou preocupação antecipado, por algo que esperamos vir ou não a acontecer.” – Entrevistado 1 (E1)

Todos os entrevistados já sentiram ansiedade, em situações de ameaça:

“Aaaa… sim! Eu não sei bem a frequência com que tenho ansiedade, mas sei que quando considero algum evento prejudicial para mim de alguma forma ou que é importante, costumo sentir!” – Entrevistado 2 (E2)

Os indivíduos revelaram sentir alterações a nível físico, emocional como o choro incontrolável e alterações no sistema digestivo:

“Físicas principalmente, a nível do sistema digestivo, a nível emocional fico muito sensível, há momentos em que tenho vontade de chorar, muito fragilizada. A nível físico, lá está tudo o que é psicológico acaba sempre por influenciar a parte física, e principalmente do sistema digestivo e até mesmo no sistema imunitário sinto-me muito mais debilita.” – Entrevistado 1 (E1)

Sendo que, os entrevistados são todos eles estudantes universitários, as situações que lhes fazem despoletar ansiedade são essencialmente a época de frequências, exames e entrega e apresentação de trabalhos:

“Situações relacionadas com a universidade principalmente… testes, trabalhos, tudo o que tenha um prazo e apresentações também.” - Entrevistado 3 (E3)

Os entrevistados vivenciaram ansiedade aquando da entrada para a universidade. No entanto, esta foi experienciada de forma diferente por cada um, dependendo do modo como cada um olha e vive a mudança:

“Sim, sim, imenso, aqui os prazos são muito mais apertados, a quantidade de coisas que tenho para fazer é maior e consequentemente isso aumenta bastante a minha ansiedade. Não conhecer a cidade, não saber por exemplo como ir para a universidade no primeiro dia, também foi difícil e causou-me ansiedade. Foi para mim um sítio novo e eu era desconhecedora e desconhecida. Claro que parte das dificuldades também esteve em não conhecer ninguém e vir para longe das pessoas que já estava habituada a ter perto diariamente.”- Entrevistado 4 (E4)

Cerca de três indivíduos que foram entrevistados, não são afetados na sua vida académica pela ansiedade, revelam conseguir ultrapassar os problemas sem grandes dificuldades ainda que isso acarrete alguma ansiedade:

“Não afeta muito. Acho que consigo resolver. Eu tenho ansiedade, claro, mas acho que na maioria das vezes consigo resolver na mesma.” - Entrevistado 2 (E2)

Os restantes revelam que a ansiedade compromete a vida académica:

“Na minha vida académica, por exemplo nas frequências, às vezes parece que tenho bloqueios. Nas apresentações dos trabalhos, às vezes esqueço-me do que vou dizer.” - Entrevistado 3 (E3)

Os estudantes afirmaram sentir mais ansiedade em época de frequências e trabalhos, ou seja, no final dos semestres:

“Principalmente na altura de finais de semestre que temos uma subcarga maior tanto na entrega de trabalhos como frequências, normalmente é nesta altura que sinto mais ansiedade.” - Entrevistado 4 (E4)

Posto isto, os entrevistados consideram a ansiedade um problema:

Acho que é prejudicial porque ficamos presas nos pensamentos, deixamos de conseguir focar-nos em outros aspetos importantes da nossa vida e, por vezes, o nosso pensamento é tão circulatório que acabamos por nos perder nos próprios pensamentos e deixamos de fazer as coisas que devíamos fazer.” - Entrevistado 5 (E5)

Entre as estratégias utilizadas pelos estudantes para lidar com a ansiedade está o controlo de respiração, o recurso a atividades distrativas e a mudança de comportamentos e de posições cognitivas:

“Pensar devagar. Na altura uma pessoa fica muito estranha, a pensar que não vai conseguir resolver o problema, mas depois se formos dividindo por partes e ver o que consegues fazer e o que não consegues fazer acho que é fácil, ou pelo menos, torna-se mais fácil. Respirar fundo também ajuda muito, tentar pensar noutra coisa e fazer coisas que me ajudem a distrair.” - Entrevistado 5 (E5)

 

Quatro dos indivíduos entrevistados, já utilizaram fármacos como forma de atenuar a ansiedade:

“Sim, victan receitada pela cardiologista, devido aos problemas de taquicardia e ansiedade.” - Entrevistado 1 (E1)

 

Discussão

A ansiedade tem demonstrado um grande impacto na população humana, incluindo nos estudantes universitários, daí a nossa preocupação em abordar quais as estratégias mais utilizadas e eficazes para ultrapassar esta ansiedade sentida.

De acordo com os nossos resultados, a ansiedade é um estado de ameaça que provoca tensão em simultâneo com diversos sintomas físicos e emocionais, sendo que todos os participantes revelaram apresentar com frequência esta experiência emocional.

Segundo alguns investigadores, o facto de os jovens terem de escolher precocemente qual a profissão que querem desempenhar no futuro, onde possam obter grande satisfação no mercado de trabalho, impõe demasiada pressão (Cassepp & Silva, 2015). Desta forma, pudemos verificar através das respostas à entrevista realizada, uma das grandes dificuldades encontradas é a adaptação à mudança, neste caso, a entrada para a universidade e tudo o que ela acarreta. A saída da zona de conforto é um fator que por si só despoleta sintomas ansiosos, ainda que não seja o único ou o principal responsável.

Esta nova fase da vida, de acordo com as respostas das entrevistas, depende muito da forma como cada um vê e lida com a mudança, sendo que muitos das participantes assumiram que este estado constante de pressão e medo, afetaria a sua vida académica. No entanto, ainda que em menor número outras, experienciam ansiedade ao longo de todo o seu percurso académico, mas isso não afeta a forma de lidar com os problemas, pois encontram sempre, ou quase sempre, mecanismos, soluções que lhes permitem ultrapassar uma diversidade de situações (Costa & Leal, 2004).

De acordo com Costa e Leal (2012), os fatores culturais e psicossociais, como é o caso dos papéis socialmente estabelecidos, influenciam os níveis de ansiedade. Neste sentido, os nossos resultados evidenciaram que existem vários períodos onde a ansiedade atinge valores mais elevados ao longo do ano, destacando-se os momentos de avaliação, frequências, exames e apresentações de trabalhos, no caso dos estudantes universitários. Esta tensão sentida por parte dos indivíduos pode ser explicada através da pressão exercida pela sociedade, uma vez que o sucesso académico é visto como um forte indicador de sucesso profissional.

Relativamente às estratégias de coping utilizadas, todas elas se mostraram eficazes, no sentido em que melhoraram o bem-estar psicológico do indivíduo e reduziram a pressão e o medo sentido. As estratégias que os entrevistados apresentaram preferência foram as técnicas ativas de resolução de problemas, a estratégia de controlo, o recurso a atividades distrativas e a mudança de comportamentos e de posições cognitivas e alguns demonstraram a necessidade, de em situações extremas, recorrer a fármacos como forma de superar estas dificuldades. Posto isto, a ansiedade foi considerada um problema por todos os participantes, ainda que muitos deles tenham evidenciado utilizar frequentemente estratégias de coping eficazes.

Efetivamente, e de acordo com os nossos resultados, podemos considerar que o nosso estudo se encontra limitado, na medida em que os nossos participantes são apenas pessoas do sexo feminino e todas elas pertencem à mesma universidade. Outra variável relevante é o facto de os participantes apresentarem uma faixa etária muito próxima. Desta forma, a compreensão dos resultados torna-se difícil uma vez que, para além de serem poucos participantes e de serem pouco representativos, a ansiedade é uma construção cultural e, por isso, o que a motiva e as estratégias utilizadas podem diferir das apresentadas consoante a cultura onde está inserido o indivíduo.

Em suma, o presente estudo, recorrendo a uma metodologia qualitativa, permitiu clarificar a forma como os estudantes universitários lidam com a ansiedade e quais os mecanismos de coping utilizados. É evidente a compreensão do fenómeno da ansiedade na medida em que é um estado de medo, vigilância e stress de algo que possa vir a acontecer no futuro. De acordo com os resultados, todos os indivíduos revelaram apresentar ansiedade-estado. Esta é uma emoção transitória que se verifica em acontecimentos específicos, onde os indivíduos respondem de forma inconsciente a nível psicológico e fisiológico, sendo que as respostas psicológicas variam de indivíduo para indivíduo uma vez que, se baseiam em sentimentos e pensamentos subjetivos. Neste sentido, propomos uma abordagem mais ampla e integradora neste domínio de investigação, tendo em conta as limitações do presente estudo, mas também algumas implicações práticas para melhorar esta condição. Dessas implicações podemos destacar o facto de a universidade fornecer recursos e serviços para auxiliar os estudantes, não só na adaptação á entrada para o ensino superior mas também ao longo de todo o percurso, melhorando desta forma, a maneira como cada um lida com as situações desafiantes do dia a dia.

 

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