ISSN 2183 - 3990       

IDENTIDADE DE GÉNERO E ORIENTAÇÃO SEXUAL NA ADOLESCÊNCIA

NATUREZA, DETERMINANTES E PERTURBAÇÕES

 

Gender identity and sexual orientation in adolescence

Nature, determinants and disorders

 

Paulo Alves [1]* /Catarina Pinheiro Mota**

pág.45-61

* ISEIT-Instituto Piaget, Viseu, Portugal; **Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Portugal e Centro de Psicologia da Universidade do Porto

 

RESUMO:

Descrita como uma forma de ser, um jeito da pessoa se manifestar e comunicar, a sexualidade afirma-se a partir da identificação do sujeito com um género e concretizada na escolha de uma orientação sexual. A turbulência pubertária revelada nas transformações e na perceção corporal, no sentido do desejo, na gestão dos afetos; na urgência de uma definição e no alcance da maturidade; no impacto dos padrões culturais e familiares, facilmente fazem resvalar a naturalidade da diferença para o domínio da perturbação e para a classificação de “patológica”.  

Na complexidade da temática, este estudo de revisão bibliográfica procura apresentar a natureza que está subjacente ao processo de identificação com o género ou sexo da natureza humana e com os determinantes que suportam a orientação sexual dos adolescentes. Sinaliza-se o papel desempenhado pelos pais e pelos amigos, analisam-se as perturbações que podem surgir ao longo do processo de diferenciação de género e conclui-se com algumas propostas para a intervenção educativa.

 

Palavras-chave: Adolescência, Identidade de género, Orientação sexual.

 

 

ABSTRACT:

Described as a way of being, a way of expressing oneself and communicating, sexuality is acknowledged from the identification of the citizen with a gender and materialized in the choice of a sexual orientation. The adolescence instability revealed in body changes and its perception, the sense of desire, the management of emotions; the urgent need to define oneself and the reach of maturity; the impact of the cultural and familiar standards, easily make the maturity of difference slide down to the field of disorders and pathological taxonomy.

In the complexity of the theme, this review study seeks to present and underlie the human nature of gender or sex identification process and the determinants that support the sexual orientation of adolescents. In this sense, it is signalized the role played by parents and friends, the disorders that can appear throughout the gender differentiation process are analyzed and we conclude with some proposals for the educative intervention.

 

Key-words: Adolescence, Gender Identity, Sexual orientation.

 

A revisão da literatura, assim como a experiência adquirida ao longo de vários anos na atividade educativa, ajustam-nos à evidência de que o início e o termo da adolescência e, por conseguinte, também a sua duração, não podem ser fixados uniformemente. Neste ciclo de vida, a variabilidade interindividual, a interação de fatores psicológicos, as condições ou circunstâncias socioculturais e a continuidade do processo geral de crescimento, fazem com que a natureza humana, se revele, tantas vezes, no comportamento e nas atitudes próprios de um estádio de desenvolvimento anterior em conjunção com as características do estádio de desenvolvimento seguinte. De forma muito especial, na adolescência as dimensões internas e externas estão em permanente relação dialética, potenciando as mais imprevisíveis experiências e as mais avolumadas incertezas.

Ainda assim, apesar da turbulência e da mutabilidade na adolescência, é possível avaliar empiricamente a emergência das alterações pubertárias, fisiológicas e somáticas; o alcance das operações formais, com a qualificação dos estilos cognitivos e das opções tomadas; o desenvolvimento do conceito de si mesmo e da auto-estima; a problemática da identidade e a crise que lhe está frequentemente associada (Coleman, 1994; Pratta & Santos, 2007). Podendo ainda acrescentar-se a redefinição da imagem corporal, em consequência da perda do corpo infantil e a aquisição do corpo adulto, a culminação do processo de separação e individuação, a busca de modelos de identificação no grupo de iguais, a aquisição de uma identidade sexual e a assunção de um papel sexual (masculino ou feminino), a alteração da relação com os pais e com os companheiros (Alves, 2002).

Independentemente da perspetiva, do tempo ou até das variáveis que a desconsiderem, a sexualidade apresenta-se como um domínio de grande importância para o ser humano, na consolidação e estabilidade da sua identidade e na forma como ele se relaciona consigo próprio e com os outros (Neuenschwander, 2002). A sexualidade é hoje efetivamente perspetivada, como uma das dimensões de mais valor e das mais motivantes nas interações humanas e na es­truturação das relações com o outro (Malva, 2011). A sexualidade é um modo de ser, de se manifestar, de comunicar com os outros, de sentir, de expressar e de viver o amor humano.

Ora, sendo a adolescência o período do desenvolvimento em que se revelam as maiores dificuldades na descoberta e na clarificação da sexualidade, não estranhamos o crescente interesse científico nos comportamentos, orientações e práticas sexuais dos adolescentes. Tanto mais quanto nos últimos anos se tem publicamente assistido à aceitação, por vezes até à exibição, de “modelos de orientação sexual” cuja existência era reconhecida mas socialmente não admitida e, por isso, tantas vezes, remetida para o domínio da anomalia comportamental (Brandão, 2008). Importa, por isso, perante o mais complexo ciclo de desenvolvimento humano e diante da estruturante sexualidade, investir na clarificação dos processos subjacentes à identidade de género e na sinalização das variáveis preditoras da escolha da orientação sexual que nos permitam a delimitação da fronteira entre o saudável e o patológico, a saúde, a doença e a angústia crónica.

 

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A correspondência relativa a este artigo deverá ser enviada para:
Paulo Jorge Alves, ISEIT- Instituto Piaget, Campus Universitário de Viseu, Viseu, Portugal. E-mail: This email address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it.

 

 

A adolescência e o sexo da natureza humana

Na espiral da evolução humana, nenhuma das teorias até hoje apresentadas explica claramente a razão pela qual existem dois sexos distintos, “porque é que não somos todos hermafroditas, misturando os nossos genes com os dos outros, mas evitando o custo de ser macho sendo simultaneamente fêmea?... porque existe o sexo?… dois sexos? ” (Ridley, 2004, p. 102). Atualmente, de forma mais clara na nossa cultura ocidental, poderíamos juntar a nesta inquietação o “porque é que estamos a testemunhar uma proliferação de géneros?”.

Os homens e as mulheres têm corpos diferentes. Os homens e as mulheres têm mentes diferentes. As diferenças são ditas geralmente como resultado direto da evolução, sendo consideradas, por definição, “genéticas”. Qualquer sugestão de que os homens e as mulheres têm mentes geneticamente diferentes horroriza a consciência contemporânea, na medida em que parece justificar a discriminação e o preconceito. Porém, assumir que os sexos são mentalmente idênticos, face à evidência de que não o são, parece tão injusto e insensato como assumir a diferença sexual face a evidência de que os sexos são iguais (Bachs, 1999).

Stanley Hall, considerado por muitos como o “pai da psicologia da adolescência”, após a publicação do “Adolescence” em 1904, partindo do conceito darwiniano da evolução biológica e inspirado por um modelo de recapitulação ontogenética da história da espécie humana impresso na constituição genética do indivíduo, elaborou uma teoria onde a adolescência é encarada essencialmente como um fenómeno biológico. No corpo adolescente, onde se encontra um sexo definido biologicamente, são fixados os atributos do género, constituídos socialmente, variando no tempo e na cultura, de tal forma articulados que, muitas das vezes, cada um aparece como parte da natureza do outro.

Sigmund Freud, no “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (as aberrações sexuais, a sexualidade infantil e as transformações da puberdade), numa ousada atitude de interpretação dos fenómenos sexuais e abolição da fronteira entre a perversão e a normalidade, o patológico e o normal (ex: fetichismo, sadismo e masochismo), também classificou a adolescência essencialmente como um período filogenético, afirmando que o indivíduo repete, através da pulsão sexual, experiências anteriores do género humano na sua evolução psicossexual (Bachs, 1999).

Numa perspetiva muito próxima, Anna Freud (1969) considera que o processo fisiológico de maturação sexual exerce uma influência direta no domínio psicológico, provocando um distúrbio do desenvolvimento. Assim, a adolescência é o fruto da puberdade, ou seja, as mudanças no organismo durante a puberdade têm efeitos diretos no desenvolvimento psicológico e, particularmente, no processo de construção da identidade do sujeito. Esta identidade (masculino e feminino) afirma-se, na teoria clássica do desenvolvimento sexual, a partir dos fundamentos biológicos, anatómicos e embriológicos, dos processos de identificação e das posições edipianas (Afonso, 2007). Nesta perspetiva, as etapas do desenvolvimento psicossexual são geneticamente determinadas e independentes de fatores ambientais, ainda que a perspetiva psicanalítica não negue a importância desses fatores. A adolescência aparece determinada pelas transformações da puberdade, que decidem a passagem da sexualidade infantil à sexualidade adulta, que se caracteriza pelo primado da genitalidade e pela escolha heterossexual do objeto de amor fora da família.

De acordo com a perspetiva psicanalítica, a maturação adolescente consistiria na retirada do investimento afetivo objetal em benefício do investimento no próprio eu, desligando-se afetivamente dos anteriores objetos de amor, nomeadamente dos pais (Cunha, 2008). Os adolescentes procuram, pela “fuga” ou pelo “isolamento”, reencontrar-se, concentrando-se sobre os seus próprios afetos, apaixonando-se pelas suas reflexões, os seus sonhos e ideais. Este processo de autonomia do adolescente é muito semelhante ao processo de separação-individuação da criança em relação à mãe, descrito por Margareth Mahler (1982). A criança desliga-se do objeto materno pela sua internalização, enquanto o adolescente se desliga dos objetos internalizados para amar os objetos exteriores e extra-familiares, traduzindo-se, tantas vezes, em comportamentos regressivos.

No referente à reativação do complexo de Édipo, os psicanalistas destacam o facto de que o acesso à genitalidade renova os desejos e conflitos infantis, mas na adolescência, dada a possibilidade da sua realização, maiores são os riscos, o medo e a culpabilidade inerentes a essa concretização (Afonso, 2007). Encontramos aqui a origem do comportamento adolescente que procura sair ou afastar-se da família e procura fora dela, quer os objetos de investimento afetivo, quer os objetos de identificação, através dos quais vai construir o self. Ao longo da adolescência, a autonomia, a individuação e a formação da identidade são fenómenos intimamente ligados e interdependentes: a individuação envolve a separação psicológica da “realidade” familiar; o processo de individuação decorre ao longo da vida e envolve mudanças no grau de autonomia versus ligação; subsiste a necessidade de ligação aos pais tal como subsiste a ambivalência sobre a autonomia.

Neste sentido, a puberdade não é um acontecimento isolado, trata-se de uma fase do processo, estádio crítico de diferenciação sexual, que começa no feto e vai até à plena maturação da vida adulta (Cunha, 2008; Marciel-Guerra & Júnior, 2002). Este complexo processo fisiológico de maturação sexual, que envolve também a dimensão afetiva, a história de vida e os valores culturais, exerce uma influência direta no domínio psicológico, provocando até, por vezes, distúrbios no desenvolvimento. Devemos, portanto, assumir a impossibilidade de entender a adolescência sem a compreensão da forma como esta evolui, assim como a impossibilidade de compreender a forma como se processa o seu desenvolvimento sem a compreensão da forma como evolui a sua sexualidade (Ridley, 2004).

Embora a identidade pessoal se vá adquirindo ao longo das diferentes etapas do desenvolvimento, a adolescência ocupa indiscutivelmente um lugar central na construção da identidade do Eu. A partir das modificações impostas ao corpo, pelo processo de maturação biológica, os processos identificatórios da infância começam a ser postos em causa na adolescência. Aquilo que até à puberdade parecia enraizado numa identidade, que levava o sujeito a sentir-se menino ou menina, requere agora uma outra significação.

Nesta idade, segundo Erik Erikson (1976), o “eu” tem de operar uma recapitulação do conjunto das identificações da infância e integrá-las numa nova configuração da identidade que permita enfrentar as tarefas da idade adulta, caracterizando-se a adolescência por um conflito entre a identidade e a confusão da identidade. Este conflito constitui o eixo em torno do qual giram os conflitos relativos às quatro etapas da infância e os conflitos que antecipam as três etapas da idade adulta, com os quais o “Eu” se confronta na adolescência.

Dos conflitos relativos à infância e revividos na adolescência, destacam-se dois, que aparecem como os mais relevantes: a experimentação de papéis, oposta à fixação de um papel, e a aprendizagem, oposta à paralisia da ação. Para Erik Erikson (1976) o adolescente tem necessidade de fazer a livre experimentação de papéis e a exploração de diversas atividades, com a finalidade de alargar a sua identidade à multiplicidade de iniciativas e de novos papéis, a que se opõe a fixação num papel único e restritivo que limita o investimento do “Eu”. A adolescência é, por outro lado, um período de moratória psicossocial, durante o qual todas as sociedades toleram que o adolescente experimente diversos papéis antes de se comprometer numa escolha profissional, a que se opõe a apatia ou inibição da acção, que ameaça a identidade do “Eu” (Silva, 2011). Nesta dinâmica de conflitos que antecipam a idade adulta, destacam-se: a polarização sexual, que se opõe à confusão bissexual; a integração das funções de poder e de subordinação, que se opõem à confusão da autoridade; e o comprometimento ideológico, que se opõe à confusão de valores.

Algumas destas convicções de Erikson foram retomadas por James Marcia (1980), que procurou avaliar o nível de desenvolvimento da identidade na adolescência, explorando três temas: a escolha profissional, a adoção de um papel sexual e o compromisso ideológico dos adolescentes. Após a análise de conteúdo de entrevistas a adolescentes, os sujeitos foram classificados em quatro estatutos, que traduzem diferentes níveis de desenvolvimento da identidade. Esses quatro estatutos de identidade são: a identidade realizada, a moratória, a difusão e a exclusão. No decorrer do processo de desenvolvimento adolescente, os sujeitos com estatuto de difusão podem ter vivido ou não um período crítico, sentem-se pouco interpelados pelos problemas da escolha e não têm compromissos a nível profissional, sexual e ideológico, nem estão implicados em nenhum destes domínios, quer do ponto de vista cognitivo, quer do ponto de vista afetivo.

Em síntese, podemos afirmar, a partir do estudo sociológico e sociopsicológico, que a adolescência é caracterizada pela preocupação e pela tarefa da construção da identidade e pelo assumir de um papel sócio-sexual.Os adolescentes vão desenvolvendo e vivenciando a sua sexualidade com o apoio esclarecido e os constrangimentos dispostos pelos pais, pelo grupo de pares e pelas expectativas da sociedade em que vivem(Brandão, 2008; Cunha, 2008; Malva, 2011; Silva, 2011).Poucas dúvidas restam acerca do facto da adolescência estar sujeita a sobrecargas e tensões, tanto devido à instabilidade interna resultante do desenvolvimento bio-psico-sócio-axiológico, como resultado das pressões conflituosas procedentes do exterior. Assim, conclui-se sobre o nevrálgico contributo deste estádio de desenvolvimento no processo de definição da identidade e no assumir de um papel sexual, podendo esta tarefa terminar na saudável solução existencial ou perpetuar-se na experiência permanente de angústia e de dor psíquica.

A Formação da Identidade de Género e a Orientação Sexual

A identidade de género e a orientação sexual de uma pessoa reportam-se sempre a um processo sobre o qual, ainda hoje, a ciência não possui um esclarecimento cabal. São inúmeras as investigações que procuraram as causas da sua origem e os fatores do seu desenvolvimento, sem que alguma convictamente as tenha conseguido alcançar. Concordante com as conclusões de vários investigadores (Almeida & Carvalheira, 2007, p. 344; Cardoso, 2005, p. 421; Costa et al., 2001, p. 218; Maciel-Guerra & Júnior, 2002, p. 15; Pereira & Leal, 2005, p. 316), o presente estudo posiciona-se a partir de duas categorias assumidas pela natureza e pelo comportamento sexual humano: a identidade de género, elemento fundamental da identidade geral, definida como a identificação do sujeito como homem ou mulher, a convicção básica do indivíduo acerca do seu sexo biológico, a consciência pessoal e a convicção do indivíduo a respeito do sexo ao qual acredita pertencer; a orientação sexual, que se refere à escolha que o sujeito faz de parceiro sexual, podendo ser homo, hetero ou bissexual.

O processo de construção da identidade de género é um processo de autodescoberta e autoclassificação no qual o indivíduo reconhece e adere a um determinado modelo. Na perspetiva psicanalítica, esta identidade do género “corresponde a um comportamento de génese psicológica que apesar de se poder associar à qualidade biológica da pessoa, pode apresentar tendência inversa ou mesmo inversão… uma massa de convicções, para além do seu fundamento biológico, se formam a partir das atitudes parentais e filtradas pela personalidade do indivíduo.” (Afonso, 2007, p. 332).Apesar dos poucos estudos relativos aos efeitos da não-aceitação identitária, os psicólogos têm identificado a sua correlação com os maus resultados para a saúde física e mental. Neste sentido, Meyer e Dean (in Pereira & Leal, 2005, p. 317) demonstraram que a não consolidação identitária poderia ser encarada como um fator preditivo para problemas de saúde mental, problemas de intimidade e comportamentos de risco em relação ao VIH/SIDA.

Ainda assim, importa esclarecer que a construção da identidade de género implica que as crianças e jovens se identifiquem como membros do seu próprio sexo biológico, pelo que uma menina que gosta de jogar futebol e praticar luta livre não comporta necessariamente uma dificuldade de identidade de género, desde que se veja a si própria como mulher e esteja satisfeita com o seu sexo(Sadock & Sadock, 2008). Ao mesmo tempo a escolha da orientação sexual não se alia obrigatoriamente à construção da identidade de género, dado que, mesmo havendo uma congruência entre o género real e o desejado, as crianças e os adolescentes podem manifestar distintas preferências de proximidade ou atração sexual, nomeadamente por parceiros do mesmo sexo ou de ambos sexos.

As indicações empíricas apontam no sentido de que este processo de identificação sexual, concretamente nas designadas minorias sexuais (GLB – Gays, Lésbicas e Bissexuais), ocorre em idades cada vez mais precoces, quando analisado a partir de diferentes faixas etárias (Antonucci & Cochran, 2011). O facto de a sexualidade ser influenciada por inúmeros fatores que interagem de forma complexa en¬tre si faz com que nem sempre seja fácil de prever a reação de cada pessoa perante um mesmo estímulo sexual. Esta dificuldade está associada à comple¬xidade da conduta sexual humana, na qual a sexualidade mediatiza todo o nosso ser mas, também, é mediatizada pelo que somso (Malva, 2011).A aprendizagem e o investimento no alcance desse modelo levam, muitas vezes, a um estado de confronto interno no próprio sujeito, no meio de muita ansiedade, de transformações intra e interpessoais que culminam na integração da identidade sexual (Pereira & Leal, 2005).

Na adolescência, período crítico do desenvolvimento da sexualidade, ocorre geralmente o primeiro contacto sexual com envolvimento genital. Embora esta fase seja pautada por uma necessidade de descoberta e experimentação, a opção e a vivência sexual que se lhe seguem vão determinar, em muito, a identidade sexual do sujeito. Através da repressão do próprio impulso sexual, sobretudo se os primeiros contactos foram frustrantes, ou através da aceitação, mesmo sem envolvimento afetivo, os processos de construção da identidade de género e da orientação sexual são portadores de consequências muito significativas na estabilidade psicológica e na saúde mental do adolescente.

 

A influência dos estilos parentais

A investigação produzida nas últimas décadas demonstrou a importância que os estilos parentais assumem no desenvolvimento das crianças e dos adolescentes (Sprinthall & Collins, 1994; Osório, 1996; Pires, Hipólito & Jesus, 2010). A família assume uma função primordial no amadurecimento e desenvolvimento biopsicossocial dos indivíduos e, apesar de todas as transformações a que esteve sujeita nas últimas décadas, mantém um papel específico altamente valorizado durante todo o processo de desenvolvimento dos seus membros (Pratta & Santos, 2007). Neste contexto, a sexualidade apresenta-se como uma das características hu­manas mais determinadas e moldadas pelo processo de socialização. Aquilo que somos, pensamos, fantasiamos, desejamos e fazemos ao nível sexual é o resultado de um processo contínuo de aprendizagens, interações e reflexões, que envolvem todos os círculos de vida e atividades humanas (Malva, 2011). Para a maior parte dos adolescentes, os contextos criados pela família e pelo grupo de pares interagem com as suas transformações físicas e cogni­tivas, de modo a produzir uma identidade individual, adequada a uma vida autónoma, responsável e competente na sociedade adulta (Sampaio, 1994).

O contexto familiar é, por conseguinte, também percebido como um espaço importante que viabiliza a determinação e a construção do género, na medida em que é centro promotor de práticas sociais que influenciam de forma explícita ou velada os seus referenciais. Se assumimos a identidade de género como uma “identidade psicossocial que assenta nos valores, comportamentos e atitudes que a sociedade considera apropriados em função do sexo biológico” (Miranda, 2008, p. 3), então ela ocorre preferencialmente na interação com os membros da própria família, feita a partir dos referenciais que são produzidos no âmbito da inter-relação (consciência-atividade-afetividade) do seio familiar.

A influência dos estilos parentais vai revelar-se igualmente determinante na adoção e manutenção de comportamentos sexuais nos adolescentes. Num estudo qualitativo acerca da influência parental e dos pares (Dias et al., 2007, p. 628) constata-se que o estilo parental autoritário pode ter um efeito adverso na forma como os jovens gerem as dificuldades em torno da vivência sexual, enquanto o estilo parental democrático proporciona um sentimento de confiança. Os resultados apontam no sentido de que a influência parental é determinada, em muito, pela qualidade da relação que os pais estabelecem com os seus filhos. A qualidade desta relação há de encontrar-se na proporcional convergência das referências parentais e da autonomia do sujeito (Sampaio, 1994).

Na análise da relação entre os estilos parentais e a orientação sexual, os investigadores da biologia e psicologia dividem-se entre diferentes opiniões, questionando até que ponto é concedível para os pais influenciarem a orientação sexual dos seus filhos. Tendo em conta uma perspetiva puramente biológica, os pais deveriam fazer pouca diferença. Ao invés, na psicologia acredita-se que a forma como os pais são capazes de gerir as relações com os filhos durante a infância e adolescência é relevante para o desenvolvimento da orientação sexual na vida adulta. Contudo, parece não existir relação entre os estilos parentais e a escolha da orientação sexual dos jovens. As pesquisas em adultos criados por famílias lésbicas permitiram testar os conceitos teóricos sobre o papel dos pais na orientação sexual dos seus filhos. Golombok e Tasker (1996) sublinham no seu estudo com 25 filhos de mães lésbicas que os jovens estariam mais aptos a explorar relações com o mesmo sexo, particularmente dado que o seu ambiente familiar na infância teria sido caracterizado por uma abertura e aceitação de relações gays e lésbicas, no entanto, a larga maioria desses filhos identificavam-se como heterossexuais.

 

Julgamos relevante discutir esta questão à luz da importância que os estilos democráticos podem assumir na vida emocional e na escolha da orientação sexual dos jovens. Um estilo parental participativo ou também denominado democrático retrata pais centrados tanto na relação quanto na socialização e no desenvolvimento do filho. Assumem uma postura exigente com regras e limites que se intercalam com muito afeto e envolvimento. O resultado deste investimento traduz crianças e adolescentes mais competentes em diversos níveis, ou seja, boa autoestima, habilidades sociais, estilo de atribuição otimista, bom desempenho académico e desenvolvimento de resiliência, o que facilita aos jovens a escolha e aceitação livre também no domínio da orientação sexual (Weber, Prado, Viezzer, & Brandenburg, 2004).

 

Para além dos pais, os adolescentes são construídos por outros indivíduos, de forma a encontrarem o seu género e a elaborarem a sua sexualidade. O grupo permite um jogo de identificações, assim como a partilha de segredos e experiências essenciais para o desenvolvimento da personalidade. Os amigos são os que melhor proporcionam um jogo de identificações e mais ajudam na descoberta da sexualidade, pela similitude e partilha de experiências. Neste sentido, na referência intergeracional, ao nível dos modelos e projetos para o futuro, confirma-se o sexo/género como determinante nos processos de identificação e imitação social, mais do que a influência da variável idade (Miranda, 2008).

Assim, na análise da influência exercida por pais e amigos, no contexto do processo de formação da identidade homossexual, Henrique Pereira e Isabel Leal (2005, p. 317) apontam para as conclusões de Savin-Williams (1990) segundo as quais as lésbicas se sentem mais confortáveis com a sua própria orientação sexual quando ambos os pais aceitam a sua homossexualidade, havendo maior atribuição da importância à aceitação da mãe do que à aceitação do pai; de New-man e Muzzonigro (1993) para quem os jovens homossexuais provenientes de famílias com valores morais mais tradicionais revelam menos a sua homossexualidade do que os jovens provenientes de famílias com valores morais menos tradicionais; de Armesto e Weisman (2001) que defendem que quanto maior for a perceção dos pais para controlar a homossexualidade dos seus filhos e quanto maior fosse a propensão para se sentirem envergonhados por causa deles, maior seria a sua probabilidade de reagiram negativamente; de Elizur e Ziv (2001) segundo os quais uma família exclusivamente centrada na expressão heterossexual ou demasiado protetora representa um fator de risco para o desenvolvimento identitário das pessoas homossexuais, aparecendo o apoio familiar, a aceitação familiar e o conhecimento da homossexualidade no seio familiar, como fatores preditivos de uma boa adaptação; de Kadushin (1996) e de Kurdek (1988) que demonstraram que os amigos são percecionados como fornecedores de apoio social mais importantes do que a família.

Neste sentido, Maria Costa et al. (2001, p. 220) recordam-nos que conseguir a aprovação dos pais ou do grupo de amigos para o comportamento homossexual não é tarefa fácil. Na afirmação da homossexualidade de um filho, a atitude da família, sobretudo do pai, vem regularmente acompanhada de “perplexidade, revolta, pouca aceitação e muita dor”. Ainda assim, Douglas Daher (1977) não hesitou no reconhecimento e na afirmação da importância da colaboração dos pais e dos amigos no processo terapêutico dirigido para a clarificação da identidade e orientação sexual dos adolescentes. Não havendo um caminho seguro e claro para se mergulhar nas profundezas da identidade sexual, apresentam-se a família e os amigos como elementos preciosos na terapêutica das perturbações sexuais.

 

Perturbações na diferenciação de género

Posicionando-nos a partir da estruturante complexidade do comportamento sexual, dos inúmeros fatores que nele intervêm, na diferenciação entre sexualidade e sexo (Mota, 2011), reconhecemos que desde muito cedo o ser humano se envolve numa real, confusa e dolorosa tarefa de autocompreensão e afirmação sexual (Costa & Vanin, 2005). Devido aos tabus que ainda persistem, a sexualidade é vivida pelo adolescente, consciente ou inconscientemente, com sentimentos de culpa e de vergonha, forçando-o a aprender a lidar com as suas energias sexuais e emoções, de modo a que estas sejam, por um lado, socialmente acei­tes e, por outro, autocompensatórias (Malva, 2011).No encalço, avançamos para a análise das perturbações tipificadas na diferenciação de género e, consequentemente, nas perturbações ocorridas em situações de ausência de sintonia entre o sexo e a sexualidade.

Na consciência de que encontramos, ainda hoje, na grande parte das sociedades um resquício de má significação e grosso desconhecimento, cumpre-nos lembrar que não integramos nesta abordagem a referência à homossexualidade, visto não se tratar de uma doença. Assim, não devemos confundir homossexualidade com outras situações em que ocorrem distúrbios de identidade sexual. Na homossexualidade, a identidade de género não apresenta qualquer distorção ou equívoco, antes aparece relacionada com a orientação sexual, cujo requisito é a preferência-opção por uma pessoa do mesmo sexo (Costa et al., 2001; Pereira & Leal, 2005; Mota, 2011).

A resolução desta histórica questão levou a psicologia a ter de enfrentar tantos outros desafios associados às diversidades sexuais. A partir da heteronormatividade, que regula e impõe regras de género e de orientação, vão aparecendo outras identidades e formas de vivência sexual, cuja clarificação se exige (Costa & Vanin, 2005). Particularmente na adolescência, período em que o indivíduo passa por desequilíbrios e instabilidades extremas, sentindo-se muitas vezes inseguro, confuso, angustiado, incompreendido por pais, amigos e professores (Pratta & Santos, 2007), importa a clarificação da incerteza da identidade, que tem sido assumida como normativa na tradução das identidades sexualmente marginalizadas (Worthington, 2008; Mohr & Kendra, 2011), e a separação do domínio psicopatológico de tudo aquilo que faz parte dessa crise de fundamental importância para o desenvolvimento integral do indivíduo.

Sabemos que os distúrbios que afectam a determinação e a diferenciação de género envolvem, além de diversas questões médicas, problemas psicológicos extremamente sérios e graves. Estes distúrbios caracterizam-se “por identificação de género cruzada, intensa e acompanhada de desconforto persistente com o sexo que lhe é atribuído” (DSM-IV-TR, p. 535). A perceção que o sujeito tem de ser masculino ou feminino é acompanhada de intensa e persistente sensação de mal-estar e pelo desejo de possuir o corpo e ser reconhecido como membro do sexo oposto. Existe, portanto, um mal-estar, uma infelicidade clinicamente significativa ou incapacidade de funcionamento social a partir do sexo que é atribuído ao sujeito, que alimenta o desejo de viver como um membro do sexo oposto.

Assim, encontramo-nos com a perturbação da identidade de género intersexual identificada pela anomalia orgânica congénita e por uma incompatibilidade entre os fatores genéticos, a estrutura anatómica, o comportamento psicológico e o sexo socialmente percebido, constitui uma grande preocupação e reveste-se de particular interesse para os profissionais e investigadores em psicologia (Santos & Araújo, 2008). A perturbação da identidade de género transexual representa, igualmente, uma profunda desordem na identidade sexual do sujeito, no referente ao ser masculino ou feminino. Trata-se de uma insatisfação ou conflito de género, com consistente discordância em relação ao sexo anatómico (Cardoso, 2005). Encontra-se mais relacionada a sentimentos e desejos internos, no adequar-se fisicamente ao que se é psicologicamente através da satisfação do desejo de pertencer ao outro sexo. Esta perturbação sexual, com evidências de distúrbios ao nível do desejo e da excitação sexual, do orgasmo e da dor sexual, vai concorrer para o isolamento social dos pacientes, a baixa autoestima e a fixação em atividades que atenuem o mal-estar com o género. Os adolescentes estão em particular risco de depressão, aversão e abandono escolar, conflitualidade com os progenitores, ideação e tentativa de suicídio.

Segundo o DSM-IV-TR (p. 579) não existe qualquer teste de diagnóstico específico para a perturbação da identidade de género (GID), podendo os testes psicológicos gerais, concretamente os de personalidade, avaliar e revelar padrões de comportamento ou identificação de género cruzada. Estes distúrbios podem revelar-se na ambiguidade dos genitais externos ou, a partir da adolescência, na forma de atraso pubertário ou de comportamentos pubertários discordantes em relação ao género social do indivíduo (Marciel-Guerra e Júnior, 2002). A estes juntam-se uma diversidade de condutas parafílicas (exibicionismo, fetichismo, pedofilia, sadismo, zoofilia… cf. DSM-IV-TR), cuja etiologia não é, de tudo, conhecida, mas que são socialmente consideradas como “comportamentos que não são normais”. Identificamos ainda todo um conjunto de perturbações sexuais sem especificação, como a intersexualidade congénita, caracterizada pela perturbação e deficiência de desenvolvimento da genitália externa; o travestir-se ou vestir-se com roupas de outro sexo, a fim de se acomodar algum nível de conflito de género; a preocupação e o medo persistente com a castração; a inadequação persistente em relação à orientação sexual.

No contexto da investigação científica mais recente, têm-se desenvolvido instrumentos específicos (questionários, entrevistas, exames físicos, testes psicométricos, testes clínicos/neurológicos) voltados para a avaliação da identidade de género na intersexualidade, atendendo ao estádio de desenvolvimento do sujeito, assim como às especificidades de cada situação (Santos & Araújo, 2008, p. 270). Roger Worthington et al. (2008), em sintonia com o modelo explicativo de desenvolvimento da identidade proposto por James Marcia, apresentam os resultados da aplicação da MoSIEC-Measure of Sexual Identity Exploration and Commitment. Este instrumento, está preparado para ser aplicado a pessoas de qualquer orientação sexual e avaliar os níveis de compromisso, de exploração de incerteza e de síntese/integração, revelados pelo sujeito relativamente à sua identidade sexual. Os autores assinalam, entre outras, as necessidade sexuais, as atividades sexuais, os valores sexuais e a expressão sexual, como dimensões fundantes da identidade sexual humana.

Jonathan Mohr e Matthew Kendra (2011) testam a “Lesbian and Gay Identity Scale” e a “Lesbien, Gay and Bisexual Identity Scale” a partir de estruturas fatoriais que integram as preocupações de aceitação da identidade, motivos para a ocultação, a incerteza da identidade, a homonegatividade internalizada, as dificuldades com o processo de desenvolvimento da identidade, a superioridade, afirmação e centralidade da identidade, assim como as diferenças individuais e o desafio do desenvolvimento da identidade em contexto de estigma social, incluindo o bem-estar, a qualidade das relações interpessoais e a capacidade de lidar com o preconceito e a discriminação. Segundo os autores, estes dois instrumentos oferecem aos investigadores e aos clínicos a possibilidade de avaliarem diversas dimensões da identidade lésbica, gay e bissexual.

Aos adolescentes com perturbação inter ou transexual da identidade de género, resta-lhes a possibilidade de recorrerem à cirurgia de reorientação sexual ou então continuar uma evolução crónica de disforia ou confusão de género. Ao encontro da primeira possibilidade, a sociedade civil tem ultimamente reclamado a despatologização da transexualidade, ainda hoje designada como uma perturbação da identidade de género e enquadrada na categoria mais lata de incongruência de género no projeto da CID 11, que a Organização Mundial de Saúde está a preparar numa revisão da sua classificação estatística internacional de doenças e de problemas relacionados com a saúde.

 

Conclusão

A consciência da importância desta temática foi desencadeada pela recente e frequente constatação de que os adolescentes, preferencialmente no contexto da atividade escolar, estão a assumir publicamente orientações sexuais como se de identidades de género se tratasse. Na alquimia explosiva da problemática junta-se à turbulenta adolescência, a dolorosa incompreensão dos familiares, amigos e professores, e a confusa e errada classificação pública do “psicopatológico”.

Neste sentido, após a clarificação feita ao longo do estudo, que teve como preocupação enquadrar os processos e fatores pós-natais envolvidos na definição da identidade de género e na orientação sexual do adolescente, assinalando o lugar e a importância que assumem os pais e amigos em todo este processo rumo à maturidade sexual, assim como a aclaração daquilo que são distúrbios clinicamente associados à sexualidade. Corroborando as conclusões de Jerel Antonucci e Vickie Cochran (2011), segundo as quais, ainda que o processo de definição da identidade e orientação sexual se encontra ativo nas mais diversas faixas etárias, a adolescência foi referenciada como o período mais destacado e incisivo neste processo, importa, neste momento, o registo de algumas propostas para a intervenção terapêutica e educativa.

Classificada como um grande avanço para as conceções da sua época, a teoria da identidade negativa de Erik Erikson pode continuar a auxiliar-nos na melhoria da abordagem a esta problemática. Para Erikson (1976) muitos adolescentes acabam por assumir uma identidade negativa como mecanismo de defesa de padrões culturais excessivamente rígidos da sociedade. As diferentes orientações sexuais surgem como forma de contestação da ordem social e de protesto contra os seus pais.

Parece-nos, contudo, que o princípio da urgência e determinação na construção da identidade, tão próprias da adolescência, podem igualmente conduzir à integração indiferenciada de modelos sexuais “facilitados” pela sociedade. Neste caso, estaremos perante o assumir de uma orientação sexual que não é mais que uma resposta fácil e socialmente exibida, não representado por isso qualquer correlação significativa com a verdadeira identidade de género do adolescente. Assumimos a importância do apurar empírico desta hipótese, sobretudo pelo contributo que poderá trazer à regulação dos modelos socialmente propostos e à prevenção de sofrimento psíquico, presente e futuro, nos adolescentes.

Neste contexto de discriminação de determinantes e influências, de construção a partir da intergeracionalidade ingroup ou outgroup, atrás registadas, urge igualmente a investigação e a reflexão sobre o papel que assumem os novos “amigo” ou “amiga”. Historicamente a educação e formação dos “mais novos” esteve sob a alçada informal da família ou formal da sociedade, nas últimas décadas mais desta que daquela. 

O percurso sexual foi influenciado, nas últimas décadas, pela família, pelos colegas do mesmo sexo e pelos meios de comunicação social.

 

Constatamos, num passado mais recente, que a família começa a perder o controlo em vários domínios, enquanto os meios de comunicação reforçam os papéis convencionais da vida adulta ligados à identidade sexual

(Malva, 2011). Com a introdução de novos espaços de comunicação e de redes sociais, aumentando em magnitude a deslocação da influência formativa para fora do espaço familiar e até da escola, a construção da identidade de género e a orientação sexual passam a contar com o contributo de novos “amigos”. A preocupação, até ao momento, tem estado centrada na sinalização e prevenção de contactos que possam ser geradores de envolvimento afetivo-sexual inapropriado. Sem desconsiderar a importância desta preocupação, importava um olhar mais atento à forma como a força desses meios, entrecruzados com a debilidade dos modelos sociais, estão a determinar (facilitando ou distorcendo) a identificação do género e a orientação sexual dos adolescentes.

Finalmente, concluímos sobre a necessidade de um posicionamento mais objetivo, despreconceituoso e cientificamente sustentado, relativamente às orientações sexuais emergentes. Apesar de, nos últimos anos, termos assistido a um atenuar da influência que exercem na nossa sociedade todo um conjunto de prerrogativas ao nível dos costumes, feito através da liberalização de inúmeras disposições comportamentais até há pouco socialmente inaceitáveis e clinicamente patológicas, não se tem investido na compreensão e respeitado a tolerância para com os indivíduos que se digladiam com o seu mundo de fantasmas e de fantasias. No essencial, não temos respeitado o tempo indispensável para que o desejo e o prazer se organizem, para que se encontrem e integrem na estrutura do sujeito e, serena e maduramente, possa afirmar-se a sua identidade e a orientação sexual. Importa, também neste domínio da identidade de género e da orientação sexual, promover a saudável relação entre a sublimidade da natureza humana e a inevitabilidade da experiência individual.

 

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[1]   A correspondência relativa a este artigo deverá ser enviada para: Paulo Alves, ISEITE- Instituto Piaget, Campus Universitário de Viseu, Viseu, Portugal. E-mail: This email address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it.

Submissão: 21.11.2014                                                                                              Aceitação: 15.01.2015

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