ISSN 2183 - 3990       

Representação dos Conceitos de Ciência e Método em Textos Didáticos de Metodologia da Pesquisa

 

Method and Representation of Science Concepts in Didactic Texts of Research Methodology

 

 

Gabriela Menezes de Souza*/ Marli Alves Flores Melo[1] **

pág.82-95

*Universidade Católica de Brasília, Brasil;**Universidade Católica de Brasília, Brasil

RESUMO

Este artigo identifica os conceitos de ciência e de método descritos por autores em livros de metodologia de pesquisa científica e indicados como referências nas ementas de diferentes cursos de graduação. Para o presente estudo, adaptamos o esquema paradigmático de Sánchez Gamboa. Foram analisadas dez obras por meio de três abordagens: a empírico-analítica; fenomenológico-hermenêutica e crítico dialética. A fundamentação teórica tem como base algumas obras clássicas da filosofia da ciência. Quanto ao nível epistemológico, identificaram-se conceitos bastante elaborados, outros quase nada dizem ou são poucos esclarecedores, em razão de suas generalidades. Concluímos que as definições apresentadas ainda não oferecem subsídios suficientes para o aluno graduando interpretar e construir os conceitos de ciência ou de método de maneira articulada, lógica e racional e que dificulta sua contribuição para a cientificidade na pesquisa.

Palavras-Chave: ciência; método; pesquisa científica.

ABSTRACT

This article aims to identify the science concepts and methods described by diverse authors in books concerning methodology research and scientific references as indicated in the course plans of several graduate courses of different universities. For the present study, the Sanches Gamboa’s Paradigmatic Scheme was adapted. Ten academic works were analyzed using three approaches: the empirical-analytic, the phenomenological-hermeneutic and the critical dialectics. The theoretical framework is based on some classic theories of philosophy of science. Regarding the epistemological level, on one hand, quite elaborate were identified; on the other, however, were also found concepts which are extremely generic and lack in consistence and material. Therefore, it was concluded that the analyzed works do not offer enough basis for the reader to support and construct an articulated, logical and rational concept of science. Furthermore, such concepts would not contribute to scientific abasement of one’s research.

Keywords: science education; method; scientific research.

INTRODUÇÃO

A busca da verdade permitiu, ao longo dos tempos, a formação de várias concepções a respeito da história da ciência e sobre o processo da construção do conhecimento, o qual se constituiu de forma peculiar com a influência de várias concepções filosóficas que datam desde a Antiguidade, em diferentes contextos sociais e nas comunidades científicas de cada época.

Acerca disso, Fourez (1995) sinaliza que a ciência era desenvolvida pelo senso comum do conhecimento a ser irrefutável e provado numa visão idealista cujos conceitos científicos eram calcados nas leis presentes apenas na natureza.

Em contrapartida, Chalmers (1993) afirma que a linha do tempo foi determinante para consolidar as características e a aceitação da ciência no desenvolvimento de teorias, para explorar os fatos, investigar o real em processos abstratos e construir as hipóteses

Na fase Popper (2007), a ciência era entendida como uma atividade humana e na aceitação de que os erros deveriam ser criticados sistematicamente e frequentemente corrigidos. Isso, para o autor, representava a ideia de refutação da teoria entre a ciência e a não ciência e indicava o problema da demarcação ao demonstrar os critérios empíricos: da refutabilidade - para funcionar como solução ao separar as ciências; o problema da indução – que dista de um ponto de vista lógico pelas inferências dos enunciados universais (hipótese, teorias) e dos os enunciados singulares (descrição de resultados, observações ou experimentos), independentemente, de quantos possam ser.

Em suma, o pensamento de Popper (2007) integra alguns dos aspectos do racionalismo crítico, prioriza o conhecimento científico na construção do homem, sedimenta a vertente da teoria da refutabilidade em favor do discurso científico e dos tipos de conhecimentos que promovem a inovação do método científico.

Daí deriva a visão “epistemológica popperiana” em relação à demarcação do problema como fundamental na construção de uma metodologia racional crítica em oposição ao caráter subjetivo e especulativo de algumas teorias, visando rejeitar simultaneamente a lógica indutiva e a observação de dados sem fundamentação teórica e verificar o conhecimento em caráter provisório.

Kuhn (2011) conceituou a “ciência normal” tomando como base inúmeras realizações científicas, bem como as disciplinas dependentes de um paradigma dominante de metodologias. Ademais, o autor mostra uma concepção de ciência “historicamente orientada” e influenciada por fatores econômicos, sociais e políticos para afirmar que a teoria aceita não é próxima da verdade, mas do paradigma ditado pela comunidade científica e não somente desenvolvido em função dos cientistas e de métodos científicos.

No entanto, Chalmers (1993), ao analisar a teoria de Kuhn ( 2011), afirma que o autor apresentou a teoria da ciência no sentido de progresso numa proposta de revolução científica que perpassa a estrutura teórica para ser substituída por outra incompatível, além de indicar características sociológicas das comunidades científicas.

Foucault (2005) retoma o conceito de paradigma proposto por Thomas Kuhn para sinalizar a noção de épistéme na busca de rupturas entre as épocas, culturas e objetos do conhecimento. Dessa forma, defendeu tudo a ser caracterizado como ordem e progresso num processo de desenvolvimento da ciência para poder provar a existência de um período de investigação pré-estabelecido e gerador de diferentes interpretações sobre um mesmo objeto.

Já Lakatos (1993) apresenta a própria metodologia para definir ciência caracterizada por “programas de pesquisa” no objetivo de propor a verdade. Para a autora, o objetivo da ciência é propor a verdade por meio de metodologia de pesquisa utilizada nesses programas, fornecer condições para se avaliar em que extensão existe a possibilidade de não haver fracassos na elaboração de novas hipóteses e reduzir as anomalias para que se multipliquem os fatores de sucesso.

Para Feyerabend (2007), a ciência não é absoluta, transita pelo campo da existência e não de critérios científicos, tem valor subjetivo, possibilita definir as opções em conformidade com os objetivos a serem alcançados, deve ser e ou estar adequada e sempre transformada. Numa visão extrema, o autor delineia que a ciência não tem características especiais que a tornem intrinsecamente superior a outros ramos do conhecimento, bem como não é absoluta, transita pelo campo da existência e não de critérios científicos, tem valor subjetivo, possibilita definir as opções em conformidade com os objetivos a serem alcançados, deve ser/estar adequada e sempre transformada.

Como se vê, a concepção de ciência na história da filosofia é determinante para se entender a construção científica, a epistemologia ou a teoria da ciência no tratamento da ramificação filosófica, dos problemas, das crenças, dos conhecimentos, da origem, da estrutura, dos métodos, das verdades lógicas dos empiristas.

Em se tratando do método, retornamos ao século XVII na busca da concepção de Bacon (1620-1999) que utilizava os dados de experiências no conhecimento humano por não concebê-los de forma absoluta e como verdades únicas, mas continuadamente reformuladas. Para o autor, era importante realizar observações nas aplicações práticas das interpretações da natureza adotando uma técnica que, no sentido atual do termo, eram a proximidade do conhecimento científico teórico em um campo específico da atividade humana, sobretudo na ciência moderna que segundo Abbagnano (1998, p. 137) “configura uma modalidade construída em um conjunto de aquisições intelectuais na finalidade de propor uma explicação racional e objetiva da realidade”.

No período da "hermenêutica romântica”situamos o método próprio de Dilthey (2010), que estabeleceu diferenças entre a lógica do conhecimento abstrato nas ciências naturais ao observar o campo restrito em que eram trabalhadas, assim como, nas ciências humanas, buscou fundamentos teóricos da epistemologia filosófica para a obtenção do conhecimento científico alternativo ao conhecimento positivista e naturalista.

Por outro lado, Feyerabend (2007) apresentou o conceito de método como não definitivo e ciente de que, ao ser aplicado, necessitaria ser de maneira generalizada ou de forma estática, em razão da existência de múltiplas interações com implicações na flexibilidade e no pluralismo metodológico, em oposição ao princípio único, absoluto e imutável de ordem.

Nessa perspectiva, Lakatos (1993) indicou como método a própria metodologia concebida na ciência, caracterizada por programas de pesquisa, cujas estruturas teóricas seriam complexas e gerais, competitivas entre si para ganhar a aceitação da comunidade científica e não podendo ser refutadas quando comparadas a dados de cunho experimental.

No que tange às principais ideias dos autores supracitados sobre os conceitos de ciência e método, verifica-se que Popper (2007) discordou das concepções de ciência colocadas por Kuhn (2011), com destaque para o conceito de ciência normal, as noções de paradigmas e de revolução científica, no entendimento de que são específicas e não apropriadas para contemplar todas as áreas da ciência. Em contrário, esse autor, corrobora com o pensamento de Popper (2007) ao priorizar a tradição científica, ignorar a noção da verdade e da falsificação para discordar do método indutivo nas ciências.

Dos procedimentos utilizados por Popper (2007), para o desenvolvimento da ciência em substituição a uma teoria aceita por outra melhor, Kuhn (2011) retirou os critérios de demarcação da ciência normal objetivando o progresso da ciência. Nesse particular, Lakatos (1993) contrapôs o falseacionismo aos dogmas e aproximou os programas de pesquisa às contribuições de Thomas Kuhn.

Diante disso, o que se compreende é que as teorias e os métodos são desconstruídos e continuamente estão sempre sendo reelaborados a fim de serem aplicados no seu objeto. Isso reforça que a escolha de um método de pesquisa implica na adesão de um conjunto de procedimentos os quais devem ser utilizados como instrumento de investigação para resolver um problema de pesquisa.

Face ao exposto, visualizamos a necessidade de se pesquisar e discutir os conceitos de ciência e método descritos como fonte de conhecimento científico em obras literário-teóricas, sobretudo, as referências bibliografias sugeridas nas ementas da disciplina de metodologia científica em alguns cursos de graduação.

A fim de verificar isso, supomos que os referidos conceitos apresentados nos livros de metodologia científica parecem não estar cumprindo as suas funções tanto na teoria como nas orientações práticas no campo de pesquisa, ao contrário, têm suscitado muitos questionamentos advindos dos graduandos. Com efeito, objetivamos sistematizar os conceitos de ciência e método apresentados por alguns autores, especificamente, analisar o cunho científico abordado pelos autores.

Importa, então, indagar: por que os alunos de graduação e que cursam a disciplina de metodologia científica, em maioria, permanecem constituindo dúvidas sobre tais conceitos descritos nos livros? Para explorar essa questão, caracterizamos a pesquisa por meio de um estudo bibliográfico documental. Foi levada a efeito a seleção de 10 obras, que se deu dentre as referências bibliográficas sugeridas para as aulas de metodologia científica.

Como instrumento de pesquisa, adaptamos o esquema paradigmático de Sánchez Gamboa (1987) para mapear, sistematizar e fazer o cruzamento da estruturação teórica dos dois conceitos ciência e método.

Para o estudo, seguimos as orientações propostas nas três vertentes de Triviños (1987): primeiro - históricos organizacionais - dos conteúdos descritos nos livros escolhidos; segundo - critérios observacionais na pesquisa qualitativa e na observação da forma como são tratados os tópicos científicos; terceiro - histórico das definições – utilizada como técnica de avaliação dos conceitos de ciência e método registrados e identificados nos livros de metodologia científica.

Como critério para a escolha dos cursos da Graduação de Direito, de Matemática e de Pedagogia e realização dessa pesquisa, definiu-se a proximidade dos pesquisadores como docentes em três faculdades brasileiras de ensino privado, sendo duas sediadas na cidade de Brasília e outra localizada numa cidade pertencente ao Estado de Minas Gerais, na federação brasileira, acerca do Distrito Federal.

Metodologia

O método de pesquisa utilizado, com adaptações, foi concebido por Sánchez Gamboa (2008) em que se apresentam três abordagens metodológicas: primeira, empírico-analítica, retrata os princípios do positivismo na busca da explicação dos fenômenos a partir da realidade em partes isoladas e mapeia o conhecimento objetivo sem a subjetividade, em defesa da neutralidade da ciência. Emprega-se o termo variável como um processo de quantificação dos fatos sociais e de reconhecimento do que pode testado empiricamente; a segunda abordagem, fenomenológico-hermenêutica, que trata da intencionalidade nos princípio de que não há objeto sem sujeito e o significado do sujeito está ante à realidade. Identifica a essência do verdadeiro fenômeno e o conceito central para análise; por fim, a terceira abordagem, crítica-dialética, considera o contexto histórico-dialético ou a dialética marxista e retrata a ideia de materialismo do mundo ao reconhecer a realidade independente da consciência.

Resultados da Pesquisa

Apresenta-se, na Tabela 1, a relação das dez obras utilizadas na pesquisa, organizadas por título, autor, editora e, cronologicamente, por ano de publicação. Indicamos o demonstrativo dos conceitos de ciência e método coletados e os respectivos quantitativos das análises das obras pesquisadas, a comparação entre a incidência com que aparecem nos livros em percentuais.

Tabela 1

Relaçãodas Obras Pesquisadas

Ordem

Título

Autor

Ano

Editora

1

Metodologia da Ciência.

Ferrari, A. T.

1974

Kennedy.

2

Introdução ao Projeto de Pesquisa Científica.

Rudio, F. V.

1986

Vozes.

3

Introdução à Metodologia Científica.

Bastos, C. L., e Keller, V.

2001

Vozes.

4

Fundamentos de Metodologia Científica.

Marconi, M. de A., e Lakatos, E. M.

2003

Atlas.

5

A Prática da Pesquisa.

Moura Castro, C.

2006

Pearson PrenticeHall.

6

Metodologia Científica.

Cervo, A; Bervian, P. E., e Silva, R.

2007

Pearson

PrenticeHall.

7

Metodologia da Pesquisa Jurídica: Teoria e Prática da Monografia para os Cursos de Direito.

Bittar, E. C, B.

2009

Saraiva.

8

Manual de Metodologia da Pesquisa Científica.

Matias-Pereira, J.

2010

Atlas.

9

Pesquisa Social: Métodos e Técnica.

Richardson, R. J.

2010

Atlas.

10

Redação Científica: a prática de fichamentos, resumos, resenhas.

Medeiros, J. B.

2010

Atlas.

RelaçãodasObrasPesquisadas

Os resultados indicados na Tabela 2 mostram os diferentes conceitos de ciência e método.

Tabela 2

Demonstrativo das Obras Pesquisadas Sobre os Conceitos e Ciência e Método

Número de Obras Analisadas

Conceitos

Incidência de Conceitos

Percentual (%)

10

Ciência

8

80,0

10

Método

8

80,0

Das dez obras analisadas, constatou-se que seis continham os conceitos de ciência e método; em duas obras, somente apresentaram o conceito de ciência; em outras duas, havia somente o conceito de método.

Análise e Discussão

Conceitos de Ciência

Na Tabela 3, é apresentada a relação dos autores, em ordem alfabética, bem como os conceitos de ciência.

Tabela 3

ConceitosdeCiêncianasObrasAnalisadas

Autor

Ano

Concepção de Ciência

1. Ferrari

(1974)

“Ciência é uma forma especial de conhecimento da realidade. A ciência é um conhecimento racional, portanto reflexivo, sustentado numa lógica racional”( p.8).

2.Marconi e Lakatos

(2003)

“Ciência e uma sistematização de conhecimentos, um conjunto de proposições logicamente correlacionadas sobre o comportamento de certos fenômenos que se deseja estudar” (p. 80).

3. Moura Castro

(2006)

“Ciência é uma tentativa de descrever, interpretar e generalizar uma realidade observada isenta de questões ideológicas e éticas ou juízos de valor”(p. 6).

4. Cervo, Bervian e Silva

(2007)

“Ciência é o resultado de descobertas ocasionais, nas primeiras etapas, e de pesquisas cada vez mais metódicas, nas etapas posteriores” (p.6).

5. Bittar

(2009)

“Ciência é o conhecimento sistematizado, testado, organizado, diluído em uma trama de postulados metodológicos”(p.31).

6.Medeiros

(2010)

“Ciência é um campo de conhecimentos com técnicas especializadas de verificação, interpretação e inferência da realidade”(p.29).

7.Matias-Pereira

(2010)

“Ciência é um conhecimento organizado”(p.12).

8.Richardson

(2010)

Ciência é uma forma de adquirir conhecimento, compreensão, crença da falsidade ou veracidade de uma proposição”(p.18).


Conceitos de Ciência nas Obras Analisadas

A concepção de ciência apresentada por Bittar (2009) ganha contornos em Kant (1983) pela base em conhecimentos sistematizados e não dispersos e desconexos.

Para Cervo, Bervian e Silva (2007), fazer ciência depende do resultado de descobertas ocasionais e de pesquisas de cunho metódico.

Ferrari (1974) coloca que a razão humana é a ciência verdadeira. Em sua proposta de conceito de ciência, esse autor indica sua filiação ao racionalismo de Descartes (1689-1996), à valorização da razão, enquanto instrumento de conhecimento, à aceitação da verdade, somente por meio dos resultados obtidos, investigados e demonstrados.

Para Matias-Pereira, a ciência traduz o conceito desenvolvido por Kant (1983) ao afirmar que todo conhecimento inicia pela experiência e se organiza nas estruturas a priori do sujeito.

Medeiros (2009) sugere que os pesquisadores, ao fazerem ciência, necessitam observar os fatos ou os fenômenos e as causas que desejam conhecer de forma isenta às questões ideológicas, éticas ou aos juízos de valores. Enfatiza que as inferências constituem-se num processo de raciocínio usado em pesquisa científica, tendo como ponto de partida uma ou mais proposições para o surgimento de outras.

Para Moura Castro (2006), a ciência somente lida com a realidade empiricamente observável que, além de classificar os fatos, reconhece a sequência e a importância relativa desses fatos.

Richardson (2010) sinaliza que, na ciência, as proposições ou as hipóteses têm a sua veracidade ou falsidade conhecida pela experimentação e não apenas pela razão, como ocorre no conhecimento filosófico.

Conceito de Método

Os conceitos de método, que ora apresentamos, foram fundamentados em focos que remetem aos caminhos da metodologia, pois a história do método científico se confunde com a história da própria ciência. Salienta-se a importância da escolha de um método de pesquisa, por certificar que não há ciência sem método, embora nem todos os estudos se constituam em ciência.

Na Tabela 4 estão indicados os conceitos de método.

Tabela 4

Conceito de Método nas Obras Analisadas

Autor

Ano

Concepção de Método

1.Ferrari

(1974)

“Método é a forma de proceder ao longo de um caminho” (p. 24).

2. Rudio

(1986)

“Método como sendo uma “elaboração consciente e organizada dos diversos procedimentos que nos orientam para realizar o ato reflexivo, isto é, a operação discursiva de nossa mente’’(p.17).

3. Bastos e Keller

(2001)

“Método é um procedimento de investigação e controle que se adota para o desenvolvimento rápido e eficiente de uma atividade’’(p.27).

4.Marconi e Lakatos

(2003)

“Método é o conjunto das atividades sistemáticas e racionais que, com maior segurança e economia, permite alcançar o objetivo – conhecimentos válidos e verdadeiros – traçando o caminho a ser seguido, detectando erros e auxiliando as decisões do cientista” (p.83).

5. Cervo; Bervian e Silva

(2007)

“Método é o conjunto de processos empregados na investigação e na demonstração da verdade”( p.27).

6. Bittar

(2009)

“Método é o caminho a ser percorrido entre dois pontos: o ponto de partida que é o estado de ignorância e o ponto de chegada que é o estado de conhecimento” (p.10).

7. Matias-Pereira

(2010)

“Método pode ser aceito como a sequência de operações realizadas pelo intelecto para atingir certo resultado”( p. 161).

8. Richardson

(2010)

“Método é o caminho ou a maneira para chegar a determinado fim ou objetivo. Já a metodologia se constitui dos procedimentos e regras utilizadas por determinado método”(p.22).

Os autores Bastos e Keller (2001) posicionam o método com tamanha grandeza, tanto que afirmam não ser possível se obter conhecimento concreto sem ele.

O conceito proposto por Bittar (2009) fundamenta-se no pensamento de Aristóteles (1632-1987) o qual concebia que o “estado de partida”, ou seja, “o estado de ignorância” consistia em um estado intelectual negativo, que se consubstanciava na ausência de conhecimento.

Cervo, Bervan e Silva (2007) colocam o método como um conjunto de processos empregados na investigação e demonstrados pela verdade.

Ferrari (1974), no seu conceito de método, situa o percurso do pesquisador na busca de conhecimento.

Matias-Pereira (1986) argumenta que o método é um modo sistemático e ordenado de se pensar, de agir, e um caminho a ser percorrido para se chegar aos objetivos da pesquisa.Richardson (2010), acerca do conceito de método, faz distinções entre método e a metodologia de pesquisa considerando ser o primeiro um caminho a ser seguido; o segundo, o entendimento de um conjunto de procedimentos a serem empregados durante a realização de uma pesquisa.

Rudio (1986) calca-se na obra de Kant (1983) e afirma que o conhecimento humano é constituído de matéria e forma. Destaca-se que, para o autor, a matéria se constitui de dados fornecidos pelas próprias coisas (empírico) e a forma é produzida por nós mesmos (puro).

Agregue-se que Bunge (2003) especifica que, nos métodos científicos existentes, ocorreram transformações significativas para o surgimento de outros em seguimento às etapas: descobrimento do problema; colocação precisa do problema; procura de conhecimentos ou instrumentos relevantes ao problema; tentativa de solução do problema; produção de novos dados empíricos que prometam resolver o problema; obtenção de uma solução (exata ou aproximada) do problema; investigação das consequências da solução obtida e, se necessário, correção das hipóteses, teorias, procedimentos ou dados empregados na obtenção da solução incorreta - este é, naturalmente, o começo de um novo ciclo de investigação.

Considerações Finais

Notadamente, a história da filosofia, em termos gerais, contribuiu na atualidade para se comprender que a ciência, ao longo do tempo, foi determinante para a consolidação de algumas ações que auxiliaram no desenvolvimento das teorias como explorar os fatos, investigar o real em processos abstratos e corroborar com a construção de hipótese. Em virtude disso, a ciência tornou-se uma das mais sofisticadas criações do homem.

Observa-se, pois, por meio da investigação realizada, que o modo como se apresentam os conceitos de ciência e de método, nas obras relacionadas e adotadas na disciplina de metodologia científica nos três cursos de graduação, revelam-se, na compreensão da produção científica e de seus conteúdos, descontextualizados e desvinculados da prática da pesquisa.

Os procedimentos metodológicos recomendados pelos autores das obras analisadas possibilitaram-nos perceber que os conceitos de ciência e método foram constituídos por alguns elementos comuns e outros particulares, o que demonstra a filiação de cada autor a uma determinada concepção de filosofia da ciência. Assim, foi possível identificar elementos constituintes de diversas correntes filosóficas, tais como, a fenomenologia, o empirismo, o positivismo, dentre outras com a prevalência do racionalismo.

Em relação aos conteúdos dos conceitos de ciência e método, encontrados nas obras pesquisadas, cujas publicações ocorreram nos anos de 1974 a 2010, identifica-se uma multiplicidade de definições e, por tal motivo, requerem uma avaliação multirreferencial pela inexistência de uma variação cronológica dos conceitos de ciência e de método.

Em detrimento disso, verificamos que já se passaram quase três décadas e, em publicações mais recentes, os autores mantiveram os mesmos conceitos, ainda que a história lhes tenha oferecido fatos e informações para a atualização dos conceitos inicialmente apresentados.

Ademais, evidenciamos que estudos acadêmicos coletivos precisam ser promovidos para que ocorram mudanças significativas na delimitação das abordagens teórica e prática as quais beneficiem o entendimento dos conceitos de ciência e método por parte dos alunos. Tal fator se constituirá como importante contribuição ao pensamento que poderá levar os alunos graduandos a desenvolverem, plenamente, as estruturas de pesquisa em contextos científicos em suas atividades de conclusão de curso.

Apurou-se, também, que alguns dos conceitos tanto de ciência como de método, identificados nas obras analisadas, foram bem elaborados com as fundamentações teóricas em textos de autores clássicos da filosofia da ciência. Outros, em outra latitude teórica, são apenas recortes de ideias publicadas por autores nacionais e internacionais e quase nada dizem ou são pouco esclarecedores, em razão de suas generalidades. Tendo em vista à seleção dos conceitos de ciência e de método apresentados e analisados, resta-nos oferecer uma resposta, ainda que restrita, à pergunta que orientou nossa pesquisa: por que os alunos de graduação e que cursam a disciplina de metodologia científica, em maioria, permanecem constituindo dúvidas sobre tais conceitos descritos nos livros?

Pôde-se concluir que tais conceitos não oferecem subsídios suficientes para o aluno graduando interpretar e construir suas pesquisas com contribuições científicas de maneira articulada, lógica e racional. Entende-se que, no contexto da educação científica, os alunos devem aprender a teoria da pesquisa, didaticamente, a partir das aplicações que os levem aos ensinamentos dos conceitos e das leis científicas (Demo, 2005).

Como implicações futuras na efetivação da pesquisa pelos alunos graduandos, recomendamos, para torná-la uma alternativa viável, que se fomente, nos docentes que ministram aulas na disciplina de metodologia científica, um repensar da essência da cientificidade para o conhecimento (Beloni & Brzezinski, 2005).

Referências

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[1] A correspondência relativa a este artigo deverá ser enviada para: Marli Alves Flores Melo, Universidade Católica de Brasília,Brasil. E-mail: This email address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it.

Submissão: 29.09.2014                                                                                               Aceitação: 5.1.2015

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